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Até estrelas viram

Apenas um amigo faz a sua visita diária; talvez atónito, sem ainda ter percebido o que se passou na e com a aldeia

N/D
28 Jul 2004

Talvez seja melhor pelo menos alinhavar estas linhas aqui in loco, ainda que muito provavelmente os acertos de pormenor venham a ser feitos lá, posteriormente; o risco que agora possa correr de, ao virar a folha, ter de sacudir o seu verso para lhe limpar o pólen dos pinheiros instalado na “secretária” é coisa de somenos.
É que, se tiver alguma dúvida, há a possibilidade de fazer revisões com mais certeza.

Como por exemplo daquela de que me apercebi, se aquele penedo que para ela é uma tartaruga e para ele é a Porca de Murça está a meio da encosta ou mesmo lá no cimo, recortado no azul do horizonte; como é que pode dar a noção de dois bichos tão díspares?!

Talvez mesmo porque o espírito assim e aqui nesta serenidade seja alimentado de um outro modo que não no meio do bulício citadino, onde o calhau seria apenas mais um por exemplo de um possível (des)aterro.

Bem lá no alto da montanha, ainda que um bocado longe destas paragens, está, no cimo de uma rocha, o Veado de Cerveira, altaneiro a perscrutar fixamente o horizonte.

Qual “monumento” semelhante mas vivo estava ontem ali adiante, por acaso a meia encosta escarpada, um verdadeiro caminho de cabras… e de bodes, e sobre um penedo que se destacava dos restantes, aquele bode que se destacava também do rebanho pelos seus chavelhos de um tamanho invulgar, quase a pedirem meças aos dos bois do Minho, e pela barba no mento, que lhe completava a imponência do porte.

Lavandiscas e melros saltam e voam despreocupadamente soltando seus trilos, num concerto harmonioso que não cansa. Não estragara o rumo destas linhas e apetecia dizer que piscos é coisa que não se vê por estas bandas, pois que apetite não falta a quem respira estes ares.

De onde a onde pequenos fios de água correm muito devagar, sem pressas, pois têm todo o tempo do mundo para chegarem ao destino que os espera; percorrem os seus caminhos devagar, tal como as pessoas que por aqui andam, sem qualquer pressa. E contrariando a cigarra e a formiga eles caminham agora cantando em murmúrio, que o tempo ameno está convidativo, para depois no verão, quando o calor aperta, descansarem refugiando-se no interior fresco das montanhas.

Até a própria aragem se mostra conhecedora destes recantos pois vem igualmente até cá para descansar também, para relaxar; é que ela só se levanta de vez em quando, quando muito bem lhe apetece, dando a entender que por estas bandas não precisa de correr atrás de nada nem de ninguém;

‘Inda “há pouco, há poucochinho
Nem uma agulha bulia
Na serena acalmia
Dos pinheiros do caminho”,

incluindo daquele que resolveu descansar a meio da encosta, talvez do esforço feito por ter “subido” até esse ponto, e que por isso estendeu o tronco quase todo por terra, elevando verticalmente pouco mais que a parte dos “membros superiores” e da “cabeça”, esta coberta com a sua farta cabeleira verde.

Coabitam por estas bandas, em perfeita harmonia, diversas “famílias” num cenário que tem tanto de espontâneo como de perfeito pois cada qual ocupa o seu lugar; uns maiores e outros mais pequenos, como se de diferentes gerações de adultos e crianças, de diversas idades se tratasse, rochas e pedras por aqui estão, mais ou menos seguras de que ainda dominam os humanos.

De tal modo que estes, querendo com tais famílias conviver, a elas se sujeitam, ousando quando muito sujeitá-las a pequenas “operações plásticas” para as tornarem um pouco mais sofisticadas. Foi o que sucedeu naquele pequeno recanto onde ela há pouco libertou a criança que há em si: “Aqui fazia eu uma casinha de bonecas; paredes já tem; neste cantinho era o quarto; neste outro era a sala; e aqui era a cozinha; o quarto de banho era aqui, para aproveitar este cano. Se chovesse, abríamos o guarda-chuva para ser o telhado da casa. Do lado de fora, esta ervinha com este pinheirinho pequenino era o jardim da casa.”

Para terminar o passeio do dia falta apenas uma ida até perto da albufeira naquele ponto que lhe fica sobranceiro, mesmo defronte do que, agora submerso, resta de Vilarinho da Furna. No percurso para lá, ele e ela estão de acordo que aquela pequena carcódia tem o feitio do mapa de Portugal; até tem relevos e tudo, que a imaginação de ambos identifica, bem como a localização do ponto onde se encontram.

Chegados ao seu “miradouro”, e devido à cota das águas, nada vislumbram das ruínas da aldeia; mas o recanto aconchegado onde ela existiu não engana pois é inconfundível. Quando o tempo o permite ou quando o nível das águas desce, espontâneas romarias de sentimentais ou de simplesmente curiosos vão até lá mesmo.

Mas apenas um amigo faz a sua visita diária; talvez atónito, sem ainda ter percebido o que se passou na e com a aldeia, ou quiçá querendo aquecer a água para quando os furnenses regressarem a acharem retemperadora, o sol persiste nas suas visitas diárias aos amigos que não habitam mais a aldeia.

À medida que o dia se vai, vem a noite. Cruzam-se a meio caminho, quando aquele vai finalmente descansar e esta vem entrar de vigília e, para não destoar, traz consigo o manto de estrelas brilhantes que tão bem lhe fica e que a ténue luz aqui da aldeia não chega a ofuscar; o que não acontece na cidade, onde, por vezes até de dia, se vêem estrelas, pouco ou nada comparáveis a estas.




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