Fotografia:
Basta!

Todos os anos pelo Verão, com uma regularidade igual à da chegada das estações, metade do país arde. E com uma regularidade impressionante todos os anos os políticos nos prometem que, para o ano, tudo será diferente. Em 2003, arderam 400 mil hectares, uma catástrofe sem comparação na última década.

N/D
27 Jul 2004

Este ano disseram-nos que seria impossível que tal voltasse a acontecer, tais as medidas que entretanto foram tomadas. Pois. Ainda não chegámos ao princípio de Agosto e a área ardida já é superior à do ano passado.

Ontem [domingo], o espectáculo era dantesco. Autoestrada cortada, automobilistas em pânico, banhistas evacuados, casas ardidas, fogo na zona protegida da serra da Arrábida, fogo em Monchique, fogo em Torres Novas – e sempre, sempre, o discurso de impotência dos bombeiros perante as forças da Natureza. Porque, na verdade, depois do fogo deflagrar, há 20 minutos em que ele pode ser controlado. A partir daí, só se consegue limitar os danos.

É por isso que os maiores sucessos serão conseguidos a montante, na limpeza das matas, no ordenamento do território, na vigilância humana e por meios informáticos da situação nas florestas, do regresso à instalação de guardas florestais em pontos críticos do país, na utilização imaginativa do exército, de jovens e de desempregados para limpar as matas, fazer queimadas controladas e alertar as autoridades para focos de incêndio.

No ano passado, a decisão de concentrar os meios de combate aos incêndios, juntando num comando único os bombeiros e a protecção civil, foi também responsável pelo que aconteceu. Ou a decisão não foi a mais correcta, ou a pessoa escolhida para liderar o combate aos fogos não era a indicada, ou não foi suficientemente explicada às duas partes a vantagem da decisão, o certo é que os resultados não podiam ter sido piores para o país, com 14 mortes e milhares de árvores abatidas pelo fogo.

O responsável pela decisão, o ministro da Administração Interna, Figueiredo Lopes, garantiu que este ano tudo seria diferente. Para já, a única diferença é que Figueiredo Lopes deixou de ser ministro. E, como é evidente, não é possível pedir responsabilidades ao novo ministro, Daniel Sanches, que leva pouco mais de uma semana no cadeirão do seu antecessor.

O que mais choca nisto tudo é que a mensagem subliminar que passa vinda do lado do poder é que os Verões estão cada vez mais quentes, logo é uma fatalidade que haja incêndios, logo é uma inevitabilidade que o país arda nesta altura do ano, assim como no Outono há chuva e no Inverno chega o frio.

Ora o recado que os políticos precisam entender é que os portugueses estão fartos destes espectáculos dantescos todos os anos no Verão. Estão fartos que todos os anos a área ardida seja maior que a anterior. Estão fartos de ver a questão ambiental ser desvalorizada, quando os riscos de desertificação do país se acentuam a olhos vistos. Basta, três vezes basta! Chamem especialistas, gastem menos o nosso dinheiro noutras coisas e mais no combate aos fogos, façam qualquer coisa duradoura e não que mude sempre que muda o ministro – mas, por favor, não nos venham dizer que os Verões estão anormalmente quentes e que, por isso, os incêndios são uma inevitabilidade. Basta!
 




Notícias relacionadas


Scroll Up