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A propósito do dia mundial dos avós (I)

Se não fossem os avós, que voltam a ter a paciência de há trinta ou mais anos para educarem uma nova geração, os seus netos sairiam para adolescência com uma afectividade anquilosada e incapaz de continuar a adequar-se pacificamente às exigências dos pais

N/D
27 Jul 2004

Sempre atenta aos assuntos relativos ao mundo familiar, recebi da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas a grata indicação da próxima celebração do Dia Mundial do Avô.

É justo que, no plano familiar e social, demos o respectivo relevo e apreço aos avós de todo o mundo, porque eles são, na realidade, um grande quinhão – quando não o único quinhão – da educação dos nossos jovens.

Parece que a nossa sociedade, tantas vezes enfronhada nas “coisas da vida”, melhor dito, na vertigem cheia de alibis e de tabus do quotidiano dos nossos dias, não releve suficientemente esta verdadeira instituição de benemerência. Os seus serviços, tantas vezes calados e aparentemente inócuos, sustentam uma boa parte da vida afectiva de quem é jovem e não encontra nos pais o apoio que devia ter.

As razões desta realidade são fáceis de encontrar. Os casais claudicam perante o ambiente consumista e concorrencial do mundo do trabalho. A ele sacrificam, muitas vezes, porque lhes parece impossível proceder doutra maneira, o melhor do seu esforço e do seu tempo, esgotando-se nas suas exigências e nas suas leis. São fundamentalmente profissionais e pais… nas horas possíveis que a primeira ocupação – a fulcral – lhes possibilita.

E são pais também o mínimo de vezes possível, porque é inviável – segundo a mentalidade consumista e burguesa – poder conciliar uma labuta de trabalho intenso e desgastante com a manutenção duma família com diversos filhos. Deitá-los ao mundo já é de si uma aventura arriscada, porque a empresa pode torcer o nariz (não falamos de situações utópicas), ao ver um funcionário a quem paga repartir os seus cuidados por uma prole considerada abundante. Supõe que assim se desconcentra em relação aos requisitos sempre prementes da rentabilidade que os patrões lhe determinam.

Por isso, há empresas multinacionais nos USA e por esse mundo fora que, antes de admitir uma mulher em estado de fertilidade, obriga a fazer um teste de gravidez. E recordo ainda a história de um amigo meu, excelente profissional que, aqui, neste jardim “à beira mar plantado”, segundo a linguagem camoniana, quando anunciou ao seu superior hierárquico que lhe nascera o quarto filho, viu-o indignar-se e, com ar de quem aconselha e ameaça, comentou-lhe que a empresa não lhe pagava “para ter filhos”.

Esta infâmia, que outro nome não pode conhecer, supõe que os deveres laborais são superiores à liberdade de um pobre cidadão ter a família que entender, ou, se quisermos dizer de modo mais contundente, à falta de liberdade que algumas linhas orientadoras do mundo económico e empresarial – na sua versão mais inumana – são capazes de pôr em vigor, como se isso fosse bom e natural, ou como se o ser humano não passasse de uma espécie de formiga laboriosa, sem outra dignidade que a de ser altamente rentável, de acordo com os critérios economicistas e capitalistas que as empresas decretarem em cada momento da sua existência, de acordo com os superiores interesses da seu sucesso.

Neste mundo, os avós são frequentemente a tábua de salvação afectiva dos seus netos, que convivem com uns pais ensonados pela manhã, sempre cheios de pressa para não chegarem atrasados aos “seus” empregos (quantos berros e quantas impaciências quando os filhos não se despacham à velocidade desejada), e esgotados à noite, sem paciência e imaginação para poderem interessar-se pelo mundo, para eles enigmático e algo onírico, dos seus próprios descendentes, porque não obedece às regras e aos preconceitos da rentabilidade.

Não atinam com o que lhes dizer e são pouco receptivos às sugestões de temas queridos pelos filhos. E, ao fim de semana, querem resolver em uma tarde de afectividade intensa, por eles orientada segundo os seus parâmetros e preconceitos, sentindo-se desconcertados quando os filhos não embarcam no seu jogo de adulto que quer mandar e construir unilateralmente os modelos de interesse e de comportamento que pensam eficazes.

Nestas circunstâncias, se não fossem os avós, que voltam a ter a paciência de há trinta ou mais anos para educarem uma nova geração, os seus netos sairiam para adolescência com uma afectividade anquilosada e incapaz de continuar a adequar-se pacificamente às exigências dos pais, numa etapa da vida particularmente difícil e conflitiva.

Voltaremos ao assunto. Mas não podemos deixar de agradecer a tantos avós deste mundo, no seu dia, o trabalho educativo que estão a desenvolver junto dos netos.




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