Fotografia:
Para férias uma boa leitura

Ler é um acto sem pressas

N/D
26 Jul 2004

Para férias recomendar-lhes-ia um ou dois livros, por pensarmos que mais vale levar poucos livros na bagagem de férias, e apreciá-los como quem come um presigo, do que levar uma mala cheia deles e lê-los com a pressa de uma empanzinadela.

Lembro-me do excursionista que apontava os nomes das terras por onde passava sem sequer as querer visitar. Era para a estatística. Continuamos fieis à nossa ideia de sempre: mais vale ler um livro muitas vezes do que ler muitos livros uma só vez. Ler não é apenas esperar o desenlace das situações; é, pelo menos para mim, ir com o autor visitar os lugares, construir as personagens, embarcar nas suas fantasias, quiçá nas suas ingenuidades. Mas quantas ingenuidades não são espelho de almas puras?

Quase sempre elas o são. Penso mesmo que ao ler inventamos uma outra escrita. Mas que livros seriam esses que lhes recomendo? Pois seria, em primeiro lugar, “O Milagre”, de Irving Walace e, do mesmo autor, “O Todo Poderoso” e ou “A Segunda Dama”.

Razões da preferência? Porque “O Milagre” é um romance que é simultaneamente um relato de uma viagem a Lurdes à procura de uma cura milagrosa e um diário de um agente secreto que tudo tentará fazer para desacreditar os milagres que subjazem da fé à vidente Bernadette de Soubirous, tendo a gruta de Massabielle como alvo principal de seu atentado bombista.

Vale a pena ler qualquer um dos outros livros, porque a carga psicológica e os meandros da psicologia humana são duma complexidade palpável em cada personagem, embora de leitura acessível e nada empolada em terminologias específicas.

Normalmente, em escrita, a forma rica é a capa de teor pobre. Não me cabe aqui fazer um ensaio sobre os livros em apreço e muito menos sobre o autor; o conselho que aqui avanço é tão só e apenas uma indicação e não uma orientação de coisa alguma.

Mas sejam estes livros, ou este autor, os preferidos, ou outros quaisquer, leiam-nos como quem saboreia uma coisa muito boa e que se sabe não deveria acabar depressa.

Às vezes é bom, tão bom, estarmos sós, mergulhados na nossa leitura e parar para estar com o autor. Visionar como eles os dramas individuais, ou os movimentos sociais que os relatos nos suscitam, é reinscrever. São sonhos e fantasias na grande aridez do concreto da vida e sabe bem.

Não será minha intenção dar lições de bem ler, ou bem cogitar num acto de leitura; o que aqui deixo dito, caros leitores, é uma confissão e não uma lição. Longe de mim tentar tal invasão, Julgo que cada um lerá de maneira diferente, saberá apreciar de maneira diversa, mas sempre seremos concordes numa coisa: ler é um acto sem pressas.

Quando observo as leituras em biquini, feitas entre ralhos e recomendações aos miúdos, penso logo: coitado daquele autor, tanto se esmerou na escrita para agora ser processo de distracção de leitores em calções de banho. Encham antes balões, façam castelos na areia, brinquem com os meninos aos baldinhos e às forminhas e se querem um entretenimento para os banhos de areia, então comprem uma revista de fofocas, leiam os amores e os desamores dos actores, as declarações dos políticos e dos jogadores, dos cometas e das estrelas do cinema, ou enxotem as moscas com elas, mas deixem os livros, pelo menos os que vos recomendo, para momentos mais íntimos.

Desejos sinceros de umas óptimas férias e uma boa leitura.




Notícias relacionadas


Scroll Up