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Factos transitados em ocorrido

Os últimos dias têm visto repetir-se com regular frequência uma espécie de dialéctica, se assim se pode dizer, bastante curiosa. Em primeiro lugar, aparece a tese, que enuncia o que se fez ou o que se vai fazer. Em segundo lugar, surge a antítese, que mostra que o que foi feito contraria o que se disse que se fez ou que se ia fazer. E, finalmente, chega a síntese, que permite concluir que a verdade está para lá do que se diz e do que se faz.

N/D
25 Jul 2004

Não faltam os cultores desta singular dialéctica. Como se fosse, por exemplo, o picheleiro que garantira que viria às 9 horas de um certo dia para consertar uma torneira qualquer, mas que apenas apareceu no dia seguinte, Pedro Santana Lopes foi interpelado pelos jornalistas sobre por que é que o governo tinha mais secretarias de Estado do que o governo anterior, quando, poucos dias antes, tinha garantido que iria suceder o contrário. Santana Lopes não se deu por achado e declarou mesmo que era preciso «assentar num critério para a relação entre nós» (entre ele e os jornalistas, portanto). Quando dá entrevistas, quando faz declarações, Santana Lopes proclama intenções. Se os jornalistas preferem «certezas adquiridas», o primeiro-ministro diz que falará «só no final».

Não interessa agora recordar a obra Quando dizer, é fazer (Quand dire, c’est faire. Paris: Seuil, 1970), em que John Langshaw Austin explica por que é que a linguagem tem um valor performativo ou, dito de outro modo, por que é que aquilo que se diz conduz à execução de uma acção. A linguagem, afirma o filósofo, não é um mero enunciado, uma simples estrutura linguística. Na política e no jornalismo, tal como na medicina ou na religião, as palavras não servem para dizer por dizer. As palavras têm consequências.

Também a dialéctica referida tem consequências. A principal é o esvaziamento de sentido de qualquer tipo de comentário. Nos cafés, nos transportes públicos ou nos jornais, os cidadãos ainda não acabaram de dar os seus palpites sobre a nova secretária de Estado de qualquer coisa e já a secretária de Estado de qualquer coisa é secretária de Estado de uma coisa completamente diferente. Os cidadãos resolvem perorar sobre um determinado facto e, pouco depois, constatam que o dito facto não ocorreu.

«Metemos a pata na poça», declarava o “24 Horas” a toda a largura da primeira página de anteontem, dia 23 de Julho. Em letras mais pequenas, surgia uma outra afirmação arrependida: «O 24 Horas errou, assume a responsabilidade e pede desculpa». A primeira página garrafal do dia anterior, que proclamava que «Generais tramam namorada de Piet-Hein», afinal não se confirmava. Como corrigia o “24 Horas”, o «Chefe das Forças Armadas não tinha nada contra ela». O jornal dava também como falso o veto de Jorge Sampaio a Teresa Caeiro. E os cidadãos que não se esquivaram a comentar o que leram na primeira página de quinta-feira também meteram a pata na poça. Os que andaram a defender que, se os generais podem dizer se querem ou não uma secretária de Estado, também os cientistas, as crianças, as famílias, os jovens, os professores ou os turistas deviam poder dizer se aceitam ou não o membro do governo que os irá tutelar viram subitamente esfumar-se os fundamentos da sua pretensão.

Não foram portanto os militares que abateram Teresa Caeiro, que era recomendável para a secretaria de Estado da Defesa porque – garantiu o ministro Paulo Portas – era filha de militar e neta de militar. Agora que foi para a secretaria de Estado das Artes e dos Espectáculos, alguém devia dizer o que faz ou fez a mãe e a avó de Teresa Caeiro, para que se percebesse se, pelo lado materno, algo a recomenda para o novo posto. O argumento que serve para um devia servir para todos e, assim, Paulo Portas devia indicar as profissões dos familiares dos novos membros do governo para se compreender quais são os que estão mais familiarizados com os cargos (nunca a palavra familiaridade se pôde usar com tanta propriedade a propósito da relação de um governante com o seu posto).

A sucessão de trapalhadas, que fazem com que à hora de jantar seja falso o que era verdadeiro à hora do almoço, parece conjugar-se para que, a partir de agora, e à semelhança do que faz quem só se pronuncia sobre os casos judiciais quando eles transitam em julgado, só acerte quem opine sobre factos que transitarem em ocorrido.




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