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Chover no molhado (40)

A pessoa humana para se tornar num bom cristão, tem de começar por ser boa pessoa. E a pessoa, como pessoa, é boa ao estabelecer e ao desenvolver, pela vida fora, relações progressivamente ajustadas com a realidade total, a fim de concretizar, na vivência da unidade, os seus desejos profundos de conservação, socialização, crescimento e transcendentalização.

N/D
25 Jul 2004

Para tal, a pessoa exige, num clima seu afectivo-emocional saudável, que a sua integridade não seja ignorada nem fragmentada, bem como as conexões entre todas as esferas da sua vida. E exige que o fluir dos seus pensamentos, sobre algo, permaneça despoluído das toxicantes irrealidades, quer ideais quer hostis. Pois o amor inteligente, que a tudo preside, nada despreza, tudo purifica e tudo avalia ajustadamente.
Vou-me remeter, agora, à Idade Moderna, em sua brilhante Idade das Luzes, pois somos culturalmente seus herdeiros e herdeiros tanto do bem, quanto do mal. E o bem tem de ser afanosamente cultivado. E o mal grita, clamando pela sua superação. Oiçamos, então, os seus gritos.
Vou abordar, levemente, o conflito entre estes dois espíritos, que assentaram praça nesta Idade Moderna: o Espírito da Sacralização e o Espírito da Profanalização. O primeiro, o Espírito da Sacralização, toma, em liberdade, a atitude de, radicalmente, orientar tudo para Deus.

E, desta feita campeia, majestosamente, a Religião; vigoriza, em autoridade, a Igreja; alimenta-se a chama da Fé em Deus; ferve nos corações a oração; fala-se das delícias celestiais; apavoram-se as aldeias com o maldito fogo do Inferno; faz-se a apologia do Cristão. E, para tal, convém a este Espírito reforçar a sua autoridade com a chancela do Divino. E, para que se cumpra, pede-se obediência cega. Deita-se a mão à censura. Atira-se para o Índex o que não convém. Recorre-se à Inquisição e à Excomunhão. E não se inibe, este Espírito, de colar o selo da sua autoridade em tudo aquilo que, no fundo, viabiliza a realização dos seus interesses particulares e pessoais.

O segundo, o Espírito da Profanalização, toma a atitude de, radicalmente, orientar tudo para o Homem. E eis que, agora, campeia a Indiferença Religiosa; ateia-se a chama, cada vez maior, da Descrença; hospitaliza-se, às gargalhadas, a Igreja; propaga-se a Descristianização; apela-se à Tolerância, no seu interesse; desacredita-se a Oração a Deus em favor do Trabalho; alimenta-se a chama incandescente da fé na Razão Natural; apregoa-se a Autodeterminação do Indivíduo e a Esperança na Cultura e no Progresso; fixa-se, objectiva e imutavelmente, a Razão como Autoridade Suprema; aponta-se com o dedo para as desnudadas Misérias Humanas.

Religião e Cultura entram, agora, num jogo do pau. É só ver qual delas bate mais e melhor acerta nas costas da outra. O Espírito da Sacralização, tomando a atitude de, radicalmente, orientar tudo para Deus, desintegra, desvaloriza e rejeita da vida do homem aquilo que ela tem de material: as necessidades corporais. Mas, pergunto, quem as substitui? Será Deus? Não creio. Ninguém lhes tira o lugar.

O Espírito da Profanalização, tomando a atitude de, radicalmente, orientar tudo para o homem, desintegra, desvaloriza e rejeita da vida do homem tudo o que a transcende: Deus. Mas, pergunto, quem o substitui? Será o homem? Não creio. Ninguém lhe pode tirar o lugar.

Por isso, quaisquer destes paradigmas, o da Sacralização ou o da Profanalização, não são, nunca foram, nem serão o modelo ajustado para a nossa conduta correcta. Qual será, então, o ajustado paradigma que terá de conduzir, agora, a nossa vida pelo caminho mais certo e direito, rumo ao Progresso Dinamicamente Pacífico? Só sei que, dos dois unido, tem de desabrochar “Um” com as características acima apontadas.




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