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Dia Internacional dos Avós

Celebra-se na próxima segunda-feira, dia 26, a festa litúrgica de Santa Ana e S. Joaquim, pais de Nossa Senhora e portanto avós de Jesus.

N/D
24 Jul 2004

Os avós, regra geral são pessoas já entradas em anos, uma vez que a idade do casamento está a ser cada vez mais adiada, porque muitos rapazes e raparigas só se decidem depois da carreira profissional consolidada.
Por esse motivo muitos avós não chegam a ver os netos crescidos, uma vez que a idade vai aumentando. É certo que os avanços da Medicina têm feito aumentar a esperança de vida e a longevidade já não é vista como algo anormal, mas corrente e com tendência a aumentar, em números de pessoas e em número de anos. A breve prazo vai ser mais vulgar encontrar pessoas centenárias do que até aqui.

As dificuldades de locomoção, as doenças inibitórias, ou a viuvez, têm impedido que as pessoas idosas possam manter-se sós nas suas casas, onde não é fácil encontrar pessoas que as atendam convenientemente ou cujo atendimento é demasiado gravoso para quem aufere pensões de miséria que não chegam para o mais essencial.

Por outro lado, a exiguidade das habitações, o trabalho fora de casa que tanto diz respeito ao homem como à mulher, o desmantelamento das famílias, com as separações e suas consequências, tem dificultado a coabitação do idoso com os seus descendentes, geralmente os filhos. O recurso é então os «Lares», nome que nos faz pensar em algo de muito agradável, mas que no fim é demasiado traumatizante para quem tem de a eles recorrer. Já nem me refiro aos «Lares-espeluncas», onde os idosos são tratados pior que muitos animais. Refiro-me aos «Lares» tradicionais onde tudo funciona bem, só que o idoso não tem, regra geral, calor humano – falta-lhe o «seu» cantinho, a «sua» privacidade, e sobretudo os seus familiares. Não quero com isto dizer que quem nos «Lares» trabalha não trate os residentes com carinho, mas temos de compreender que o volume de trabalho não pode personalizar esse carinho. Se um idoso tem necessidade de desabafar ou contar algo que o oprime, a pessoa que o assiste não dispõe de tempo suficiente para o atender, uma vez que tem muitos outros à espera.

Se entram para um «Lar» ainda com algum vigor, rapidamente vão enfraquecendo e diminuindo a sua autonomia. Se uma criança criada sem carinho cresce de modo deficiente, um idoso sem carinho morre. Ora um idoso mandado para um «Lar» perde todas as suas referências, muitas vezes até porque tem de mudar de terra, deixando para trás os amigos que ainda lhe podiam fazer alguma visita. Deixa o seu quarto de dormir, para o ir partilhar com um desconhecido. Da noite para o dia o ambiente que o rodeia é completamente diferente do que era até aí. E assim em muitas outras coisas.

Eu compreendo que é muito difícil manter no seio da família um idoso dependente, uma vez que todos os membros da família têm os seus empregos fora de casa e o idoso não tem quem cuide dele. Outras vezes é o caso da falta de um quarto para albergar o idoso, quando a casa já não chega para a família nuclear.

Mas então, por que não manter o idoso na sua casa, incentivando o apoio domiciliário? Equipas especializadas encarregavam-se do idoso, quer na manutenção da sua higiene e na da habitação, quer no tomar das refeições, quer na aplicação dos medicamentos, etc. Está provado que era uma solução mais económica, mas sobretudo mais humana.

Também não se compreende que filhos que optem por manter os pais em casa, com apoio domiciliário, não recebam qualquer ajuda, mas se os meterem num «Lar», já podem usufruir de certos benefícios, quer em termos de subsídios, quer em termos de deduções fiscais.

Faço votos para que as coisas mudem. As verbas gastas nos «Lares» devem ser canalizadas para as famílias que se responsabilizam pelos seus idosos, ficando a solução – «Lar», para situações extremas. Se fizéssemos um inqué-rito aos idosos internados em «Lares» bem organizados veríamos que a maioria preferia ter menos cuidados, mas permanecer em sua casa ou em casa dos filhos. Situações de absoluta falta de espaço, de incapacidade total do idoso para se bastar, incompatibilidades familiares inultrapassáveis, etc., só essas deviam ser colmatas pelo recurso aos «Lares»; todas as outras deviam ser ultrapassadas pela manutenção nas suas residências ou inserção nas casas dos descendentes. Um idoso com alguma autonomia pode ainda ser muito válido, quando solicitado para tarefas compatíveis com as suas forças; e aqui entra a principal alegria dos idosos: cuidar de um neto, levá-lo ao colégio, fazer pequenos trabalhos domésticos; fazê-lo sentir-se útil, é mais de meio caminho andado para que o idoso não se sinta um fardo e não seja um estorvo na família.

Os casais novos gostam de sair à noite e por vezes o não ter a quem confiar os filhos é um impeditivo. Ora se lá estivesse o avô ou a avó, tudo ficava resolvido. E depois as crianças gostam do convívio com os mais velhos. Quem como uma avó sabe contar uma história, uma, duas, três vezes, com grande alegria da pequenada. E depois o saber-se útil faz esquecer ao idoso o reumático e os queixumes – ele verdadeiramente só se queixa de o porem num canto como um objecto sem valor.

Um rapazinho foi convidado para a festa de aniversário de um amigo. Quando chegou a casa disse à mãe: “Que feliz é o João”. A mãe logo pensou que o João tinha recebido alguma prenda muito do agrado do filho. Assim, inquiriu: “Por que dizes isso”. “É que o João tem avós”. De facto aquela criança não tinha chegado a conhecer os avós pois quando nasceu já tinham falecido.

Temos pois de fazer renascer o respeito pelos idosos e também saber aproveitá-los, para tarefas que os façam sentir-se alguém e que podem contribuir para um enriquecimento da educação dos mais jovens. Esse respeito passa pelo seu direito à diferença, o direito às suas preferências, a paciência pelas suas limitações. Pensem, aqueles que são mais novos, que caminham para a velhice desde que nascem e tratem os idosos de agora como desejariam ser tratados quando chegar a sua vez de adquirir o «cartão 65». Abro aqui um parêntesis para rectificar – com o andamento que as coisas levam, daqui a algum tempo não é idoso o que atinge os 65, mas o que atinge os 80 e então o cartão passará a chamar-se «cartão 80».




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