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As inversões de marcha…do imaginário real

Em tempo de férias, no rescaldo ainda de êxitos efémeros no futebol, mas com a euforia que nos empolgou até ao paroxismo e nacionalismo de trazer por casa, com bandeiras na rua, talvez ignorando os símbolos nacionais, vivemos uma nova fase política.

N/D
24 Jul 2004

Sempre me preocupou a tendência de polarizarmos nos outros, sobretudo nos políticos, a resolução dos nossos problemas e crises. Às vezes, perdemos o sentido das proporções, alheios aos sacrifícios e apostas que temos de vencer por nós próprios. Sonhamos com um país moderno, de bem estar, mas não somos capazes de fazer restrições para melhorar o futuro.
É curioso notar que, após as grandes lutas dos trabalhadores por melhor condições de trabalho e saúde, depois da guerra, se pense hoje passar de 35 horas de trabalho para 50 semanais, reduzir uma semana de ferias aos trabalhadores para se tornarem concorrentes, produzirem mais, melhor e por mais baixos preços, caso da Alemanha. Embora os sindicatos se pronunciem contra, muitos trabalhadores estão de acordo, desde que lhes garantam os postos de trabalho, o que não acontece.A ânsia e o engodo de racionalização, robotização e computarização levou a uma nova era em que só as empresas, tecnologicamente bem preparadas, poderão fazer face à concorrência internacional e impor-se no mercado, com produtos novos em sociedades saturadas, onde o poder de compra é de cada vez menor, maior o número de desempregados, e as pensões de cada vez mais reduzidas…

Estas questões deveriam ser muito bem ponderadas pelos partidos de esquerda, que sempre falam em nome dos trabalhadores, mas esquecem o contexto social e económico, que estamos a viver, com tantas empresas descapitalizadas, mal apetrechadas, sem inovação tecnológica, nem escoamento de produtos, e com grandes encargos sociais e de impostos, ou custos de infra-estrutura demasiado elevados. Em alguns casos, inverteram-se os tempos, parecendo voltar aos anos 40, ou mesmo ter a percepção de uma nova era industrial, que não tivemos ou não acompanhámos de forma racional e inteligente. Investiu-se muito em sectores terciários turísticos, têxteis e calçado, etc onde perdemos a pedalada e concorrência, ameaçados por outros, em circunstâncias mais precárias, mas desenvolvidos também nos mesmos sectores, por vezes, melhor apetrechados, qualificados e tecnologicamente mais avançados. As componentes tradicionais foram abandonadas.

Desertificaram-se aldeias e culturas, sofremos a invasão em supermercados e a nossa agricultura foi abandonada, dependendo cada vez mais do exterior sem auto-suficiência. Portugal aparece assim como um país fragilizado em muitos sectores, compensado pelas reservas de emigrantes a reduzir-se… e uma certa vertente para o turismo, também fragilizada pela crise mundial. Como resolver e obviar a crises futuras? Como dar resposta com uma Economia mais dinâmica, flexível e actual?

Se a qualificaçao dos trabalhadores era fundamental para os novos desafios, como compensar o que temos ainda incipiente? Será apenas com ideologia política, estratégia de mendicantes e filosofia demagógica, em que os menos prevenidos são as vítimas sempre, como os mais fracos? Bastará a ” cunha” que temos em Bruxelas?… Não creio nem ele pode….

Espera-se do governo e do povo muita clarividência, sensatez e equilíbrio, de modo a estratificar sectores desenvolvidos, compensar os fragilizados e dar resposta, mesmo com inovação, aos desafios europeus, tendo em conta até a crise dos mais ricos…

A euforia do futebol acabou…. Este joga-se agora no areópago e no terreno, como os valores do nacionalismo tersados deverão florescer numa consciência mais adulta e de resposta aos grandes problemas nacionais. A linha de força deverá ser mais consenso político, solidariedade social e aposta em novos mercados como no afrontamento dos grandes problemas mundiais, saindo do látego, onde sempre vivemos.

Temos melhores estádios, que nos limitarão, e cuja factura vamos sentir… Somos hoje servidos por melhores redes e sintonias internacionais, mesmo no desporto…Mas não é tudo!…Esperava-se muito mais e com outro fôlego!…




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