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Sampaio terá decidido bem

1 Um problema nascido da defecção do dr. Barroso Durão subiu de letra e lá foi, coitado, perfumar os ares da Europa, deixando-nos a todos cheios de saudades.

N/D
23 Jul 2004

O governo ficou assim, inesperadamente, sem Primeiro-ministro. E pôs-se o problema de saber se poderia, sem mais, substitui-lo e continuar operativo. Ou se em vez disso teria de cair e ser iniciado um novo processo eleitoral.

O assunto era duvidoso e a Constituição diz, que nestes casos, cabe ao Presidente da República (PR), ouvido o Conselho de Estado, decidir qual dos dois caminhos haverá que seguir. Recorde-se que no sistema português actual, quando há eleições legislativas, o que o povo escolhe são os deputados para a Assembleia da República.

E é a partir das maiorias formadas nessa Assembleia que o PR deverá apontar o líder indicado por certo partido, para que este forme governo, só ou em coligação.

2. Não se gerou qualquer crise institucional

A “auto-exportação” daquele que a partir de agora diz querer ser conhecido pelo nome de dr. José (Manuel) Barroso não originou qualquer crise especial. Talvez até tenha ajudado a aliviar o pesado ambiente político que desde o primeiro momento existiu, por força do carácter pouco conciliatório do já saudoso líder e das suas antigas más relações com Portas.

E é por este motivo que haverá alguma hipocrisia no diagnóstico do PS e do PCP acerca do momento político. Não se criou ou agravou crise nenhuma. Pelo contrário, se crise havia e o seu alegado principal responsável vai embora, o ambiente geral melhora e a crise diminui ou desaparece.

3. As razões objectivas de Sampaio

Além do que ficou dito atrás (não haver crise institucional e a substituição dum líder teimoso e inflexível por alguém mais “político” poder, por si só, melhorar a governação), ao dr. Branco Sampaio assistiam outras razões de fundo.

A primeira destas é que os governos são eleitos para governar por quatro anos (salvo casos de força maior) e não para caírem por ocasião dos primeiros chuviscos.

A segunda razão objectiva é que este governo PSD-PP apresentou um programa com contornos cronológicos especiais. Verdade ou mentira, o dr. Barroso enfatizara que os dois primeiros anos iriam ser para pôr as Finanças em ordem, tendo o povo de “apertar o cinto” (como se a célebre “tanga” tivesse cinto…). E os anos seguintes seriam de bastante mais desafogo, fruto da poupança dos dois primeiros.

Daí que fosse injusto para o PSD e CDS não os deixar provar que tinham razão, dando-lhes oportunidade de mostrarem agora os bons resultados da sua política. E evitando que viessem a ser terceiros partidos os injustos usufrutuários de «tão boa herança financeira».

A terceira razão que amparou a opção do PR liga-se à incerteza do que poderia acontecer nas eleições antecipadas. Homem de esquerda liberal-radical, Sampaio temeu que, se a vitória em eleições antecipadas voltasse a caber ao PSD-PP, o actual cenário (pouco negativo), de ter de os “aguentar” por apenas mais dois anos, se pudesse transformar numa interminável ordália de seis anos de governo de centro-direita.

E há ainda uma quarta razão, “last but not the least”. É que o actual líder do PS se encontra há muitos meses numa posição perfeitamente caduca, devido à imagem com que foi “galardoado” pelas investigações jornalísticas ligadas ao escândalo pedófilo da Casa Pia. No mínimo, pela sua estreita amizade com um dos mais notórios arguidos, o dr. Pedroso; e pela publicidade negativa que criou, ao amarrar a sua liderança no partido (e na Assembleia da República…) a essa amizade.

Bem fez pois o salomónico dr. Bensaúde Sampaio ao obrigar o PS a arrumar devidamente a casa, antes de concorrer a eleições. Pois, penso eu, seria trágico para o país ser “premiado” (após o castigo de já ter tido de aturar Barroso nos dois últimos anos) ter de aguentar agora um Ferro Rodrigues com a miserável imagem (verdadeira ou falsa) que lhe foi criada e da qual ainda não se desfez. Ao ponto de, aos mais perspicazes, parecer que Ferro não se demitia, só porque a sua fraca liderança convinha a Barroso, ao qual Ferro obedecia…

4. No fundo, a decisão presidencial agradou a quase todos

Devido ao que acabámos de expor, o próprio PS deve estar agradecido a Jorge Sampaio. Quanto ao PSD e ao CDS, isso é óbvio. Já quanto ao PCP, a questão não é tão líquida, apesar da moderada algazarra que fizeram. E isto, porque nas recentes eleições europeias o PCP subiu para cerca de 9 por cento.

Porém, este resultado é uma falsa aparência e deveu-se apenas à abstenção de 62 por cento do eleitorado e à disciplina de voto tradicional dos cunhalistas. Em eleições antecipadas baixariam outra vez, até porque poderia funcionar o voto útil a favor do PS. Bem vistas as coisas, eleições antecipadas só interessavam aos trotskistas do Bloco de Esquerda (BE), cuja demagogia se encontra em maré alta.

5. A libertação de Paulo Portas

O talentoso líder do PP é que finalmente parece respirar fundo. A sua sujeição à “opressão barrosista” era tão evidente quanto a de Ferro. Tornou-se, por motivos desconhecidos, um escravo do saudoso dr. Durão, ao ponto de, com evidente mal-estar pessoal (e intelectual), ter aderido à impensável invasão do Iraque.

Prevê-se que irá estar muito mais à-vontade no governo de Santana Lopes. Apesar de Durão ter conseguido “infiltrar” neste alguns dos seus devotos. A começar pelo célebre António Monteiro, o ex-embaixador na África do Sul que foi expulso por violação de correspondência.

6. Finalmente, a retoma dos negócios

Salvo melhor opinião, a dupla Santana-Portas (se se souber rodear de novos ministros) poderá levar a uma nova vitória eleitoral a coligação PSD-PP. Criando assim, e desde já, uma estabilidade sem peias, altamente propícia à confiança na Economia do país e no funcionamento harmonioso e sem hipocrisias de todos os seus órgãos políticos, agora encabeçados por pessoas sinceras e capazes. Sobretudo se no PS vier a pontificar alguém como Jorge Coelho ou João Soares; ou até, José Sócrates.




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