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Saber ser e saber estar

Não queiramos trespassar para os mais novos os nossos fantasmas ou as nossas frustrações

N/D
23 Jul 2004

Quando um cidadão atinge o topo da notoriedade de um país, como o caso da Presidência da República, findo o mandato, os detentores do cargo dever-se-iam pautar por padrões de sobriedade, de elegância, de discrição e de distanciamento perante as diversas cores partidárias.

Assim, seria sempre reconhecido como uma reserva moral, uma referência cultural e intelectual, um exemplo de desapego ao poder e de nobreza de princípios e de valores. Seria um verdadeiro gentleman.

Penso que a postura do ex-Presidente Eanes se enquadra neste conjunto de atributos que só o honra e o dignifica. Reparado o erro da sua ligação à criação de um partido, tem tido, depois disso, um comportamento digno de nota, já que tem estado longe dos conflitos políticos, das quezílias partidárias e de todo o jogo limpo ou sujo que se desenvolve nos bastidores sem contudo deixar de estar atento ao que de mais importante se vai passando dentro do país.

Não se expõe gratuitamente de forma a alimentar o seu ego e, se tem ambição política, não se tem notado. Tem passado despercebido, discreto e só o vemos nos grandes acontecimentos nacionais com uma postura equilibrada, irrepreensível de uma verdadeira figura de Estado.

Por outro lado, temos o ex-Presidente Soares que não perde pitada de meter a colher no panelão da política. E por mais disparates ou coisas acertadas que pronuncie ou escreva há sempre eco da sua voz ou da sua pena. Tem-se a noção que o faz por azedume, por birra e por dor de cotovelo, enchendo a boca ou a caneta com os anafados argumentos da democracia, da liberdade, do laicismo e da esquerda republicana.

Nestes últimos tempos apontou as baterias para o líder do CDS/PP, ouvindo deste piropos que não ficam nada bem a um ex-Presidente. Agora com a “prestigiosa” saída para Bruxelas do dr. Durão Barroso e com a potencial ascensão do dr. Santana Lopes para primeiro-ministro, lá vem a terreiro lançar a confusão ou querer perturbar a decisão que se quer serena, inteligente, acertada e democrática do Presidente Sampaio.

É verdade que ele, dr. Mário Soares, queria ser, em tempos, o Presidente do Parlamento Europeu em Estrasburgo, mas como era de prever a sua família política, em minoria, perdeu. E sem ter o fair play necessário e que se exigia a uma figura bem conhecida no mundo da política, desancou ressabiado na recém-eleita Nicole de la Fontaine.

O filho, João Soares, apoiado por toda a esquerda, da moderada à radical, perdeu a Câmara Municipal de Lisboa. E o pai, sempre à espreita e esperando a oportunidade mais própria, vai tirando desaforo por tão humilhante derrota. É preciso saber perder e quando se perde é porque alguma coisa está errada.

O tempo de agora é dos novos com ideias novas e com horizontes novos e mais rasgados. É por isso que as coisas evoluem, avançam, se consubstanciam os projectos e se materializam os sonhos. Temos que ter consciência que o tempo dos mais velhos está passado e temos que saber sair de cena com dignidade e elegância.

Deixemo-nos de nos armar em tutores e de proclamar que as gerações que vêm depois de nós são rascas e que só sabem delapidar o património ou outros bens que os velhos deixaram ficar. Não queiramos trespassar para os mais novos os nossos fantasmas ou as nossas frustrações.

Se fosse possível armar-me em conselheiro, eu diria ao dr. Soares que descanse e aproveite agora este tempo de Verão para curtir e se bronzear nas areias finas do Vau e dar uns mergulhos nas águas tépidas algarvias. E no Inverno, que se recolha no quentinho do borralho e aprecie o que de bom ainda há na vida.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. E o mundo é mesmo feito de mudanças. É por isso que ainda há dinossáurios na política, apesar da democracia nos remeter para a alternância de poder, como solução para purgar o sistema, valorizar as diferentes ideias dos cidadãos ou dos partidos e fazer aparecer figuras novas com valor, que trarão uma mais valia sempre inovadora e mais criativa a qualquer país.




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