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O lugar dos anciãos

São eles que ainda mantêm em muitas casas e famílias o gérmen da fé, e poderão ser eles os continuadores da evangelização para as gerações mais novas que ainda são confiadas aos seus cuidados

N/D
22 Jul 2004

O calendário litúrgico assinala, na próxima segunda-feira, dia 26 de Julho, a memória de São Joaquim e Santa Ana, pais da Virgem Maria e avós de Jesus Cristo. De há uns anos a esta parte, este dia tem sido conhecido como Dia dos Avós, e foi reconhecido até pelo próprio Governo português como Dia Nacional dos Avós. Em algumas dioceses e no Santuário de Fátima realizam-se peregrinações dos avós, com programas celebrativos próprios e adequados.
A ocorrência deste dia constitui uma oportunidade para reflectirmos acerca da importância dos avós em geral e dos anciãos em particular, na sociedade portuguesa e na Igreja. Primeiramente, temos de referir que ser avô não é sinónimo de velhice, pois são muitos os avós ainda com idade para serem pais. Contudo, o papel do avô e da avó está estereotipado e quase sempre associado ao velhinho(a) afável, ou um pouco rabugento(a), já reformado da actividade profissional. Outra falsa ideia é a de que os avós são na maior parte das vezes inválidos e um estorvo para a família.

Desde sempre, os anciãos ocuparam nas várias sociedades um papel de importância decisiva. Eram eles que, no decorrer dos séculos, garantiam a continuidade das tradições e guardavam a sabedoria dos antepassados. Se lermos a Bíblia, vemos como os anciãos, na sociedade patriarcal hebraica, eram estimados e respeitados. No próprio Novo Testamento, os Apóstolos, depois de fundarem uma comunidade cristã, constituíam anciãos à frente da mesma para assegurarem a veracidade e ortodoxia da fé.

Contudo, nesta nossa sociedade ocidental que busca incessantemente o “elixir da eterna juventude”, os anciãos foram lançados para segundo ou terceiro plano. A sua voz deixou de ser escutada com respeito e muitos foram mesmo “encaixotados” em lares e asilos de idosos. A sociedade tenta por todo o custo apagar as rugas da sua existência escondendo aqueles que há mais tempo caminham e vivem neste mundo.

Na própria Igreja, os anciãos (mais de 50 por cento em algumas das nossas comunidades cristãs) vivem um pouco esquecidos pela pastoral. Muito ou tudo mesmo é feito para captar a juventude (e ainda bem) para as assembleias cristãs, mas descura-se a pastoral dos anciãos, das viúvas, daqueles que enchem as nossas Eucaristias.

A Igreja deve ter especial atenção para com os anciãos, não só construindo lares e centros de dia, mas dando-lhes a oportunidade de continuarem a crescer na fé, através de uma efectiva catequese de adultos e anciãos. A própria sociedade civil dá o exemplo através da constituição das Universidades da Terceira Idade. A Igreja deve também criar um verdadeiro percurso e espaços de formação cristã para os anciãos que tanto tempo têm disponível.

Se é verdade que são os nossos anciãos e anciãs que dão corpo aos nossos movimentos eclesiais, mesmo os mais recentes como o Renovamento Carismático, as paróquias poderiam criar, como sugestão, conselhos de anciãos, não como paralelo aos conselhos pastorais, confrarias e irmandades, mas como associações de fiéis vocacionadas para a pastoral dos mais idosos.

Estes conselhos não seriam corpos mortos e amorfos, mas verdadeiros viveiros de revitalização da comunidade cristã, pois como diz o Papa (também ele um ancião) com uma verdadeira catequese do Povo de Deus, tudo o mais na Igreja decorre facilmente.

Não podemos fugir à realidade: os anciãos existem e enchem as nossas igrejas e capelas. São eles que ainda mantêm em muitas casas e famílias o gérmen da fé, e poderão ser eles os continuadores da evangelização para as gerações mais novas que ainda são confiadas aos seus cuidados, devido ao ritmo de vida profissional alucinante em que muitos pais vivem nos nossos dias.




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