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Multiculturalidade e convivência social

Quem considera que a imigração é um peso para quem acolhe, só está a ver um lado do problema real. Talvez seja o lado económico que pese mais para este observatório. No entanto, o imigrante, embora venha à procura de trabalho e tenha necessidade vital de ganhar dinheiro, é uma pessoa humana que é portador de direitos e deveres e faz parte duma família e transporta consigo uma cultura e também uma religião. Por este motivo as questões relacionadas com a imigração não se resumem, simplesmente, a um par de euros ou a uma conta bancária.

N/D
21 Jul 2004

Ao longo de muitos anos discutiu-se, socialmente, a questão do relacionamento dos imigrantes com as comunidades locais ou de acolhimento. Era mesmo este problema que andava na baila quando, nos anos 70, comecei a trabalhar na Alemanha entre os portugueses migrados.
Na altura falava-se no surgimento de “guethos”, na assimilação étnico-cultural e também em integração. Palavras que indicavam determinados conceitos e inclinações sócio-culturais. Havia quem defendesse que os imigrantes vinham só para trabalhar e, por isso, a sua missão específica passava por ali e nada mais teriam para além do fruto do seu trabalho. Esta era uma posição radicalizada defendida, de modo especial, por aqueles que, politicamente, se consideravam da extrema direita. Normalmente, esta posição andava aliada a conceitos racistas, xenófobos, segregacionistas.

Lembro-me, por exemplo, do “Manifesto de Heidelberg” feito por intelectuais, que deixava transparecer o surgimento destas tendências no meio da sociedade alemã. Os imigrantes agrupavam-se em “guethos” para se defenderem, em oposição ao grande grupo social formado pelos nacionais.

Por outro lado, começou também a debater-se o fenómeno da “assimilação”. Os grupos mino-ritários de outras nacionalidades, estando em contacto com a sociedade global onde trabalhavam e viviam, deviam ser assimilados e identificados com a sociedade que os recebiam, para que as fricções sócio-culturais, políticas e religiosas fossem, o mais possível, esbatidas e superadas. Seria como que pôr de parte a sua cultura específica, a sua religiosidade tradicional e os seus hábitos sociais. Seria a imposição da lei do mais forte ou da maioria social as minorias étnico-culturais. O que provocou fortes reacções e gerou muitas tensões entre os diversos grupos minoritários e a massa social maioritária.

Também naquela altura surgiu o conceito de integração. Recordo-me de ter organizado centenas de debates e colóquios para uma maior consciencialização deste conceito, a partir da realidade concreta que tínhamos de viver naquele país.

É certo que as crianças dos portugueses estavam a nascer e a crescer na Alemanha. Entravam nas escolas e o seu círculo de amigos eram alemães, turcos, espanhóis, argelinos, croatas, jugos-lavos e era nesta miscelânea étnico-cultural e religiosa que teriam de construir o seu futuro. Recordo-me ainda do tempo em que os pais, constituídos em associações, reivindicavam para os filhos uma “escola portuguesa” e só, complementarmente, o ensino da língua alemã. Anos a seguir, os portugueses, até por força da política cultural da Alemanha, foram obrigados a frequentar, na sua globalidade, a escolaridade alemã e, complementarmente, a cultura portuguesa.

De facto, a integração implica estar no país em que se trabalha e constrói a vida, de modo inteiro, fazendo todo possível para tirar partido de tudo o que está ao seu dispor para que se sinta feliz e realizado. Por isso, o conceito de integração implica também o dever do diálogo, do respeito cultural, étnico e religioso, da partilha de valores e do fomento da identidade própria das minorias. E só no diálogo e no respeito de cada povo é que a convivência é possível.

De facto, no momento presente, Portugal passou a ser um país de imigração, o que não era na época de 60 ou 70. Estamos confrontados com problemas diferentes daqueles que tínhamos quando apenas éramos povo de emigrantes. Isto não quer dizer que não continuemos a ser um povo que exporta mão de obra e gente para diversas latitudes; somos, no entanto, também uma terra que recebe gente de muitos lados e estamos com problemas, quer sociais, laborais, mas também culturais, étnicos e religiosos que antes não tínhamos.

É nesta abertura aos outros, à sua cultura e religião, que teremos de construir o nosso futuro. Reclamámos os direitos lá fora para os portugueses; é justo que proporcionemos a quem trabalha e vive connosco esses mesmos direitos que quisemos para aqueles que tiveram de emigrar.




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