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A hora do Presidente

Seria muito mais salutar para a democracia que, lenta mas progressivamente vai manifestando perigosos sintomas comatosos, se as iluminárias do reino nos tivessem poupado das doentias operetas político-folclorizadas

N/D
20 Jul 2004

Maquiavel (1469-1527) disse que a Fortuna era uma mulher. O subscritor do trabalho que se segue, ousa aditar – e sem pretender menosprezar esse histórico Florentino – que mulher também é a política, actriz sem vontade, obrigada a executar trabalhos teatralizados quantas vezes impudicos e ornados da mais baixa estultícia.
O Sr. Durão Barroso foi indigitado por convite (que aceitou) para presidir à Comissão Europeia, deixando – obviamente – as funções de primeiro-ministro do Governo português. Não estivéssemos numa república das bananas e a decisão do Sr. Barroso não provocaria o terramoto político (a roçar a escala máxima de Richter) que se verificou.

Mas isso aconteceu e, logo, os já muito conhecidos salvadores da Pátria, os pais da democracia e quejandos, apressaram-se a lançar poeira aos olhos (que não aos meus) deste povo triturado pela politiquice doméstica, dizendo-se e fazendo-se patrioticamente indignados por o timoneiro ter abandonado o barco a meio do seu percurso.

Esqueceram-se (?), propositadamente (hipocrisia das hipocrisias!), que sempre pugnaram pela renúncia do primeiro-ministro e a consequente queda do seu governo.

Os ideólogos do nada ficaram muito melindrados por esta inqualificável afronta à terra (que já foi) de figuras insignes quando no fundo, bem no fundo das suas almas, agradeceram individual ou colectivamente enquanto deambulavam pelo labirinto sinédrio da política, ao “fugitivo” (como agora o apelidam) por tão afortunada e não menos inesperada oportunidade que lhes caiu nos braços fazendo-os gozar de antemão a magnificência das poltronas do poder. Mas afinal que políticos temos nós?

Do ponto de vista pessoal, se o Sr. Durão Barroso, pessoa que respeito mas por quem não tenho qualquer tipo de afinidade incluindo a política, tivesse descido a escadaria até ao meu tosco e quase analfabeto banco de aldeão, tê-lo-ia (mas quem sou eu?) aconselhado, fazendo uso do meu free spirit (espírito livre), a não aceitar o cargo; e digo-o no mais estrito sentido da verdade.

Consumado porém o clímax da questão, de nada vale (ou valia) chorar sobre o leite derramado; e, demais a mais, não há homens insubstituíveis. Seria muito mais salutar para a democracia que, lenta mas progressivamente vai manifestando perigosos sintomas comatosos, se as iluminárias do reino nos tivessem poupado das doentias operetas político-folclorizadas.

De um lado, uma franja a pedir com todos os meios ao seu alcance eleições antecipadas (mas sem intenções de pressionar o Sr. Jorge Sampaio – diziam eles – mas que ganda farsa!). Do outro lado da barricada, a enfática garantia de que estavam (no meu entender, estavam mesmo) reunidas todas as condições para restabelecer a estabilidade política que, entretanto, se tinha desmoronado com a saída de Barroso.

Os gladiadores da arena política faziam, entrementes, sacrossantas juras em como acatariam democraticamente a derradeira decisão do Presidente da República, afinal o único homem que, por excelência, e conscientemente alheio a toda a verborreia a que assistíamos, tinha (e continua a ter) os poderes que a Constituição lhe confere para desatar o nó da corda (bamba?) que serviu para alguns circenses da política caseira se entreterem durante alguns dias, felizmente não muitos.

E nessa sexta-feira do dia 9 de Julho do calendário do tempo, as TV’s mostraram-nos o Sr. Presidente da República anunciando a sua autorizada decisão.

Não haveria eleições antecipadas! Enquanto a coligação PSD/CDS, embora refreando ao máximo o seu júbilo pela decisão do Chefe da Nação, se limitava aos condimentos de circunstância, na contracosta política o primeiro a sucumbir, para alívio de muitos dos seus camaradas (?), foi o Sr. Ferro Rodrigues que se demitiu do cargo de secretário-geral do PS enquanto que, por outro lado, os ânimos de alguns compagnons de rout (caso da Sra. Ana Gomes, expert em subversão verbal) subiram ao rubro denotando uma gravíssima falta de respeito pelo dignitário que tendo em mãos a difícil tarefa de decidir o fez com lisura e sentido pátrio.

O tribunal da história o julgará. Se o PS ou alguns PS’s têm algo a cobrar, que apresentem a factura ao cidadão Jorge Fernando Branco de Sampaio, mas jamais ao Sr. Presidente da República. E o PS (os outros partidos à esquerda deste nunca foi chão que desse uvas) que renasça com novas mentes e novos espíritos, que bastante falta fazem à tão fragilizada democracia portuguesa; e que, de uma vez por todas, este partido político se consciencialize de que muitos dos endeusados que (ainda) conserva intramuros há muito que morreram… politicamente, entenda-se! Mas que, infelizmente, e para infortúnio do partido, continuam a ter relutância em jazer.




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