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Eu também perdi

No que diz respeito a Jorge Sampaio, fiquei a gostar dele como nunca gostei… e, no entanto, eu também perdi

N/D
19 Jul 2004

Quando há dias escrevi sobre a situação política portuguesa motivada pela fuga de Durão Barroso para a Europa, adiantei que a melhor situação para os portugueses seria eleições antecipadas e adiantava razões para isso.
O entendimento do sr. Presidente da República foi outro, foi noutro sentido e não fiquei nem magoado, nem desapontado. Pelo menos não senti aquela raiva que vi nas declarações de alguns políticos da oposição, tão manifestamente demonstrada que parecia o fim do mundo que vinha aí. Julgo mesmo que tenho obrigação de concordar que foi precisa muita coragem para o Presidente da República fazer o que fez. Não é fácil irmos contra a família política e muito menos contra os amigos de longa data.

Imaginemos que temos um pleito entre a nossa família e os con-dóminos do prédio e, por amor ao bem comum, somos obrigados a ser por eles contra os nossos?

Zangávamos tudo e todos em casa e só nos ficava, como consolo, termos optado em consciência. Só que a consciência é nossa vozinha e os outros têm fortes vozeirões.

Quanto a isto não podemos deixar de verberar fortemente as declarações de alguns socialistas e muito mais a de Ana Gomes logo depois de saberem o resultado da comunicação ao país. Esta senhora ex-embaixatriz, e actual deputada europeia, raiou o inconcebível. Para esta senhora a democracia está em perigo, e ele logo ali estará.

Peito às balas feito, para a defender. Se os actos tiverem a força das palavras, temos mulher. disse que estava arrependida, muito arrependida, de ter votado em Jorge Sampaio, como se este tivesse a obrigação de ser pela esquerda e considerar que o acto do Presidente da República deveria ter sempre essa tendência política. Disse que um amigo lhe mandara uma mensagem a dizer que a direita ganhara porque agora “tinha um governo, uma maioria e um presidente”.

Sampaio agora é da direita, no entendimento de Ana Gomes e do seu particular mensageiro; certamente quando Ana Gomes abriu os olhos para a política já Jorge Sampaio se batia pela esquerda contra o regime do Estado Novo. São assim as diarreias. Borram tudo antes de tempo. São assim os democratas que o são enquanto ganham e o deixam de ser logo que perdem.

A demissão de Ferro Rodrigues tem outra leitura para lá do que se observa da sua fuga do PS. Toda a gente foge. Aprende-drigues sabia que sem a realização de eleições antecipadas, era inevitável haver congresso no PS onde ele seria irremediavelmente derrotado. Por isso pensou: vale mais sair amuado do que sair derrotado. A camuflagem não é apenas o disfarce do camaleão.

Há políticos mestres em mime-tismo. Foi uma medida estratégica militar: se não podes avançar com segurança toca a recuar com prudência. Os seus opositores – estamos a falar de Ferro Rodrigues – são de maior peso e melhores politicamente.

Daí a sua “derrota política” a que quis somar a “desilusão pessoal”. Também penso que Ferro Rodrigues quis sair para vir a ser candidato a Presidente da República…
nunca se sabe, dada a escassez de candidatos na esquerda… talvez chegue a sua vez.

É uma hipótese. Mas no que diz respeito a Jorge Sampaio, fiquei a gostar dele como nunca gostei… e, no entanto, eu também perdi.




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