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Autores, livros & confusões… em feira

Sem juízo de valor, perguntamos: a quem interessa difundir aqueles livros exotéricos? Como podemos ajudar quem deles se socorre? Até onde irá a exploração destas pessoas famintas de divino?

N/D
19 Jul 2004

Decorreu, em Forjães (Esposende), no recinto do ‘Centro Cultural Rodrigues de Faria’, de 10 a 18 de Julho uma feira/exposição de livros.
Através de seis pavilhões podiam-se perceber algumas das publicações do momento (publicitadas ou vendíveis) bem como de alguns autores relacionados com aquela vila.

Sobre estes – treze no total – foi publicado um opúsculo bibliográfico onde se tentou expor a vida, obra e pensamento (particularmente dos já falecidos) numa descoberta de pessoas que se foram destacando pela arte de passar a escrito dimensões diversificadas do saber, da experiência de vida e mesmo da cultura popular ou instruída.

Quem se tiver dado ao trabalho de percorrer os outros cinco pavilhões – ligados a editoras/livrarias de Braga, Esposende e Viana do Castelo – poderá ter captado o que influencia ou aquilo que se vende. De forma resumida podemos encontrar três áreas principais: didáctico-infantis, pedagógico-profissionais-educacionais e de índole espiritualizante.

Quanto à primeira vertente estavam expostos livros, cadernos e informações direccionadas para o sector das crianças (claro atingindo sobretudo os pais e educadores): de forma simples se tentava atingir o público mais pequeno. Pareceu, no entanto, faltar a dimensão audio-visual mais apelativa aos interesses actualmente explorados na educação escolar, lúdica e interactiva.

Na referência pedagógica podia-se perceber que, para além do sector dos professores, as sugestões eram bastante redutoras. Que faziam ali expostas as lições de kamasutra (em versões várias) ou mesmo certos best-sellers da capital? Por onde caminha culturalmente o nosso povo? As propostas para grávidas terão algum acolhimento num meio onde as influências hedonistas (já) ganham campo à defesa e promoção da vida?

O terceiro campo – desculpem os promotores da iniciativa a visão crítica – que descobrimos como polarizador dos expositores foi esse de natureza pseudo-meta-física. Com efeito, vimos dezenas de livros exotéricos de Paulo Coelho ou alexandra solnado – escrevemos os nomes em minúsculas por (des)respeito a essa sábia autoria e seus sequazes – à mistura com outra literatura de religiosidade mais ou menos católica, como livrinhos sobre Fátima, os pastorinhos e até com orações tradicionais.

De facto, esta (mesmo que breve) mostra reflecte uma certa avidez de espiritualidade: individual, directo e simplista. Tal literatura exposta na feira vende, cativa e confunde.

Torna-se, porém, importante tentar reflectir sobre as causas de tanta desorientação se não religiosa pelo menos cultural. Com efeito, os utentes/leitores/consumidores daquela literatura – nalguns casos a roçar a tendência de cordel – são cristãos desiludidos, ressabiados ou sedentos duma vivência cristã mais exigente do que o mero tradicionalismo católico, que lhes é, tantas vezes, servido.

Sem juízo de valor, perguntamos: a quem interessa difundir aqueles livros exotéricos?

Como podemos ajudar quem deles se socorre? Até onde irá a exploração destas pessoas famintas de divino?

Aos organizadores da feira/exposição de Forjães – minha terra natal – quero dizer: obrigado. Continuem a fazer chegar aos meus conterrâneos sinais de cultura, valorizando os seus autores e abrindo horizontes mais largos, mais altos e mais profundos.




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