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Leonard Zelig, o velho, o rapaz e o burro

Leonard Zelig tem extraordinárias capacidades miméticas. Assemelha-se sempre às pessoas que encontra, parecendo-se com elas mesmo fisicamente. Quando se aproxima de uma qualquer personalidade, como, por exemplo, Hitler, o Papa Pio XII ou o escritor Francis Scott Fitzgerald, fica como se fosse dela um mero espelho.

N/D
18 Jul 2004

Nos contactos que foi estabelecendo com os parlamentares das várias famílias políticas eu-ropeias, José Manuel Durão Barroso trouxe à memória essa fascinante personagem, inventada por Woody Allen, que fica igual ao seu interlocutor. Um bocadinho liberal com os liberais, um bocadinho socialista com os socialistas, um bocadinho verde com os verdes, Barroso foi tocado por um inesperado mimetismo e até se lembrou da sua militância esquerdista de que em Portugal se esquecia.
A fuga de José Manuel Durão Barroso (não deixa de ser curioso verificar que alguns dos que se fartam de dizer que a política é um serviço têm elogiado a decisão do ex-primeiro-ministro pressupondo que a política é uma carreira) obrigou o Presidente da República a tomar uma decisão, aliás, ao que parece, a mais difícil desde que exerce o cargo. Os comentários sobre o que Jorge Sampaio devia ou não fazer lembram a história do velho, do rapaz e do burro que se aprendia (e talvez ainda se aprenda) nos primeiros anos de escola.

A história, como quase todos certamente se recordam, dava conta da viagem de um velho, de um rapaz e de um burro em direcção a uma aldeia. Conforme foi combinado, coube ao rapaz o privilégio de ir de burro. Quando passaram por um grupo de pessoas, escutaram diversos comentários que, no fundamental, diziam que era uma vergonha o rapaz ir no burro e o velho ir a pé. Para evitar outros possíveis comentários desagradáveis, o rapaz e o velho trocaram de posição.

Pouco depois, cruzaram-se com mais pessoas que barafustaram por causa da vergonha que era o velho ir no burro e o rapaz – um rapaz tão novo – ir a pé. Para definitivamente não terem de escutar mais opiniões indignadas, resolveram ir os dois a pé. Quando se cruzaram com um novo grupo, as considerações maledicentes repetiram-se.

Desta vez, as pessoas afirmavam que era uma estupidez os dois irem a pé quando tinham possibilidade de ir de burro. O velho e o rapaz resolveram agora montar o burro. As pessoas que estavam mais à frente ficaram furiosas com o que viram. Era uma crueldade duas pessoas viajarem em cima de um pobre sobrecarregado animal, diziam. A história prossegue, mostrando sempre que não é possível agradar a todos.

O dia-a-dia, como se sabe, tem-se fartado de mostrar que não é possível agradar a todos. Jorge Sampaio – que, se por acaso fosse a personagem mais idosa da história do velho, do rapaz e do burro, ter-se-ia encarregado de transportar às costas (metaforicamente, claro) a personagem mais jovem – mostrou agora como é possível agradar a tão poucos.

É difícil o exercício do poder. Salazar, num daqueles ensinamentos apenas para aplicação alheia, avisava a população: se as pessoas soubessem quanto custa mandar, gostariam de obedecer toda a vida. Sobre esta particular dificuldade, escreveu Bertolt Brecht um famoso poema que diz que “Todos os dias os ministros dizem ao povo / Como é difícil governar. Sem os ministros / O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. / Nem um pedaço de carvão sairia das minas / Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda / Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida”.

No momento em que um novo governo acaba de ser empossado, espera-se que os novos ministros trabalhem de manhã à noite – correndo por todo o país, visitando tudo, participando nos mais variados encontros e reuniões, almoçando, jantando, nomeando, demitindo, concedendo audiências, fazendo leis, desfazendo leis, esclarecendo as leis que fizeram, explicando por que desfizeram outras leis, enfim, cansando-se – para, desde logo, evitar que o trigo cresça para baixo em vez de crescer para cima.




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