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Da TV para a vida real

O que está mais ou menos prometido pelo naipe de candidaturas socialistas é que a campanha de 2006 será uma espécie de reedição dos debates da RTP entre Sócrates e Santana

N/D
16 Jul 2004

A inopinada demissão de Ferro Rodrigues pode ter deixado o PS estupefacto mas nem por um momento deprimido. Tanto que, mal o líder saiu, o processo da sua substituição desencadeou-se sem dramas, com abundância de candidatos e a maior das naturalidades, dando ao país a ideia de que, na realidade, esse processo já estava em curso nos bastidores.

Dentro e fora do partido, ninguém tem hoje a menor dúvida de que foi a consciência da precariedade da sua posição como líder que levou Ferro Rodrigues a abandonar.

Ora, se, apesar da vitória do PS nas europeias, Ferro era um líder isolado e triste, incapaz de transmitir uma pitada de vigor ou entusiasmo e tendo por único objectivo político esperar por eleições, na expectativa de que o poder lhe caísse nas mãos, o mínimo que se pode dizer é que, ao recusar a dissolução do Parlamento, Jorge Sampaio prestou, indirectamente, um bom serviço ao seu partido.

A decisão de não convocar eleições impediu, desde logo, que ficassem ambos sob a suspeita de programarem as coisas no sentido mais favorável ao PS, no caso provável de este sair vencedor. Além disso, provocando a saída de Ferro – de acordo com a leitura do próprio, ao demitir-se – Sampaio contribuiu para apressar a renovação da liderança socialista. E isto, só por si, dará ao PS um novo fôlego nos dois anos
que faltam para se cumprir a legislatura.

Com a demissão de Ferro, o PS não acabou apenas com uma liderança frágil. Acabou também com um mito sebastianista que não parava de crescer e ameaçava persegui-lo indefinidamente, condicionando até qualquer futura liderança – o mito Vitorino.

Para isso contribuiu, valha a verdade, o próprio António Vitorino quando, pressionado a dizer de uma vez por todas se queria ou não apresentar-se, esclareceu, preto no branco, que, apesar de o PS estar pronto a ir buscá-lo num andor, lhe faltam vontade e motivação para o cargo. Com uma tal justificação, afasta-se de vez, deixando o caminho livre para quem o quiser trilhar.

Ao contrário do que sucedeu logo a seguir ao abandono de Guterres, quando Ferro chegou lá por exclusão de partes, desta vez não faltam candidatos. E, realmente, a situação é tentadora para quem tenha a ambição que falta a Vitorino. Em vez de uma travessia de quatro anos de oposição, o líder que sair do próximo Congresso socialista tem as legislativas à distância de dois anos.

E serão dois anos em que, além de um Governo Santana-Portas com baixíssimas expectativas, a nova direcção socialista terá eleições regionais e autárquicas para disputar e não essa autêntica travessia do deserto que foi o primeiro ciclo da legislatura para Ferro Rodrigues.

Qualquer dos pré-candidatos – João Soares, José Lamego, José Sócrates, António José Seguro e o mais que estamos para ver – parte como líder de facção. E arrisca-se a ficar como tal se não conseguir impor uma liderança firme e ganhadora a um partido em que cada uma das muitas famílias e personalidades detém o seu quinhão de poder.

Todos os candidatos sabem – e o PS no seu conjunto também – que nenhum deles alcançará a posição de líder incontestado se não conseguir chegar depressa ao Governo. E na escolha que vier a ser feita pesará muito a forma como, na sua memória recente, os socialistas associarem o nome de qualquer dos candidatos a uma imagem de poder. Daí a aparente vantagem de Sócrates, que guarda, incólume, o capital adquirido como ministro do Ambiente competente, além de determinado e combativo.

Saber se, depois de conquistar o partido, conseguirá ganhar o país, eis a grande incógnita. O que está mais ou menos prometido pelo naipe de candidaturas socialistas é que a campanha de 2006 será uma espécie de reedição dos debates da RTP entre Sócrates e Santana – ou «os marretas», como lhes chamou uma vez, em plena emissão, um responsável pelo programa.

Como se a televisão tivesse antecipado a realidade a grande distância. Como se fosse ela a definir, muito mais do que imaginamos, os contornos dessa realidade e, bem assim, a identidade dos seus protagonistas.




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