Fotografia:
Lamentável

Sampaio deixou como legado para o futuro o facto de ter tido a coragem de decidir contra os que o elegeram. De não cair na tentação de querer agradar ao seu eleitorado, decidindo contra a sua consciência.

N/D
15 Jul 2004

A reacção da esquerda à decisão do Presidente da República de não convocar eleições antecipadas foi absolutamente lamentável. Desde os tempos da guerra de Sá Carneiro contra Ramalho Eanes não me recordo de tão violentas – e deselegantes – críticas ao chefe do Estado.

E totalmente incompreensíveis: se, de acordo com todos os constitucionalistas, qualquer decisão seria legítima, como se explica aquela reacção descabelada?

A explicação só pode ser uma: o Partido Socialista, o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda viam ali uma oportunidade única de chegarem ao poder.

Ou seja: quando defenderam a dissolução do Parlamento não o fizeram de forma desprendida, por acharem que era a melhor decisão; fizeram-no por pura ambição política, para chegarem ao poder antes de tempo.

Isso foi patente em Ferro Rodrigues – cuja demissão só se pode entender na base de ele achar que a ascensão ao Governo era o único modo de conservar a liderança do PS.

Mas, se Ferro se considerava incapaz de continuar doutro modo à frente do partido, como poderia ser primeiro-ministro?

Que garantias pode dar um primeiro-ministro que não consegue governar o seu próprio partido?

Com o Partido Comunista – que pela primeira vez criticou abertamente um Presidente da República – passou-se um pouco o mesmo.
Carlos Carvalhas viu ali uma ocasião única.

A liderança fragilizada de Ferro permitia a Carvalhas sonhar com uma ida para o Governo no caso de haver eleições agora.

Porque no futuro, com Vitorino ou Sócrates à frente do PS, é muito problemática a celebração de uma aliança PS-PCP.

E Francisco Louçã navegou na mesma onda.

O “enfant terrible” Louçã, pese embora toda a sua rebeldia, queria sentar-se na cadeira do poder e viu aqui uma aberta.

A esquerda atacou violentamente Jorge Sampaio não por discordar da sua decisão mas por querer desesperadamente ir para o Governo, por querer ir para o Governo a qualquer preço e de qualquer maneira, por pensar que não terá outra oportunidade como esta – e por Sampaio lha ter negado.

Mas isto só dá razão ao Presidente da República.

A sofreguidão da esquerda, a sua voracidade, não auguravam nada de bom.

Claro que se pode dizer que a direita, se Sampaio tivesse decidido o contrário, reagiria com igual violência ou pior.

Talvez.

A única coisa que se pode dizer é que se sabe como a esquerda reagiu – mas não como a direita reagiria.

Tenho para mim, no entanto, que a reacção da direita não seria tão ácida até por uma razão: porque a esquerda comporta-se como se tivesse sido enganada – e com a direita isso não aconteceria.

A esquerda – pela voz, por exemplo, de Ana Gomes – comportou-se como se o Presidente, por ser de esquerda, tivesse de fazer a vontade à esquerda, ao eleitorado que o elegeu.

Ora isso é infringir uma das mais basilares regras do sistema: no momento em que o Presidente da República é eleito a maioria que o elegeu dissolve-se, porque ele passa a ser o Presidente de todos os portugueses e não daqueles que nele votaram.

Sampaio deixou como legado para o futuro o facto de ter tido a coragem de decidir contra os que o elegeram.

De não cair na tentação de querer agradar ao seu eleitorado, decidindo contra a sua consciência.

Só por isso mereceria palmas.




Notícias relacionadas


Scroll Up