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Ao serviço do bem comum

Não temos um Presidente da República eleito por unanimidade. Mas uma vez eleito, não deve deixar de ser o Presidente de todos os Portugueses. Não pode ser um refém da maioria que o elegeu

N/D
15 Jul 2004

Sou dos que pensam que a decisão de não convocar eleições antecipadas foi, nas circunstâncias actuais, a mais aconselhável. A ver agora o que fará o novo governo, presidido pelo Dr. Santana Lopes. Penso que, tendo em vista o bem comum, ninguém estará interessado em que seja um fracasso.

A não ser que haja quem procure o poder a qualquer preço, mesmo que para isso tenha de provocar o caos, a fim de, posteriormente, surgir como salvador da pátria.

Não é caso virgem, infelizmente, a existência de bombeiros que ateiam incêndios para, depois, terem que apagar.

Porque a decisão tomada pelo senhor Presidente da República foi uma das duas possíveis, é naturalíssimo que tenha provocado descontentamento em quem considerava melhor a outra opção, como é legítimo que dela se discorde.

Mas uma coisa é discordar e outra, certas reacções, quanto a mim, inteiramente descabidas, que vieram a público. Se discordar é um direito, saber discordar é uma obrigação. Considero o destempero como algo que deve ser evitado. Como não concordo que a frontalidade seja um novo nome do descontrolo.

Não temos um Presidente da República eleito por unanimidade. Mas uma vez eleito, não deve deixar de ser o Presidente de todos os Portugueses. Não pode ser um refém da maioria que o elegeu. Ao decidir, há-de ter em conta o bem comum e não o interesse dos que nele votaram.

Tenho ouvido de presidentes de Câmara que, ao entrarem nos paços do concelho, deixam à porta o cartão de militante e o emblema partidário. Se isso acontece ou não, é assunto de que não trato hoje. Mas o facto de o Presidente da República, uma vez eleito, dever deixar toda a actividade partidária, há-de ser, quanto a mim, uma realidade com efeitos práticos.

As decisões de um Presidente da República, seja ele quem for, hão-de ter em vista o interesse nacional. Na minha perspectiva, um Presidente da República tem de procurar ser uma figura suprapartidária. Tem de ser alguém imune a qualquer tipo de pressões, venham elas de onde vierem. Mais do que um vulgar cidadão, um Presidente da República tem de procurar formar bem a sua consciência e de agir de harmonia com ela. Desagrade a quem desagradar.

Um dos perigos da democracia é a dependência dos votos. Quem quer ser poder procura não descontentar, o que pode fazer com que deixe de tomar medidas que o bem comum exigiria mas que, por impopulares, seriam mal recebidas pelos eleitores.

Todavia, quem encara o exercício do poder como um serviço e não como uma oportunidade de promoção pessoal, não pode deixar de decidir tendo em vista o bem comum, ainda que por isso corra o risco de vir a perder votos. Mais do que os votos que uma decisão impopular pode fazer perder vale a satisfação do dever cumprido e a tranquilidade de consciência de ter feito o que se considerava ser o melhor.

O falecido Rei Balduíno não deixou de ser rei para não ter de assinar a lei do aborto? Mandar bem é não ter medo de desagradar, sempre que o bem comum o exija. O remédio que cura é, por vezes, bem amargo.

Que se não confunda o bem da generalidade dos Portugueses com o bem de um partido e que quem aceitou ser poder o faça para servir o bem comum e não para se servir ou para servir os seus.




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