Fotografia:
O Euro-2004 e «a febre patriótica»

Durante alguns dias, o País vibrou de entusiasmo com a realização do Euro-2004. E com razão. Foi um acontecimento que dominou a informação, a paixão futebolística e o desejo de ver Portugal com êxito na execução.

N/D
14 Jul 2004

Neste plano, o da execução, Portugal marcou uma posição destacada no campo desportivo europeu. E o entusiasmo das multidões avivou essa nota bem destacada pelos comentadores.

Acontece, porém, que, infelizmente, não somos persistentes e com grande facilidade quebramos as nossas decisões internas e os nossos aplausos.

O sociólogo e investigador social João Nuno Coelho escreveu em título de artigo que publicou: «A febre patriótica é passageira».

Eduardo Lourenço, em declarações ao semanário “O Diabo”, disse: «Creio que não convém exagerar. Já atravessámos períodos mais problemáticos do que este. A normalidade política é até excessiva, continua a haver ausência de discussão na vida portuguesa no seu conjunto, vive-se num clima de águas quentes onde, no lugar de resolver as questões, o português opta por emigrar. Nada de novo até aqui, a não ser o campeonato de futebol, onde se aposta tudo, esquecendo que as questões de fundo não se resolvem num campo de futebol».

José Hermano Saraiva, em entrevista ao mesmo semanário, diz: «Hoje o estádio substitui o templo. Juntando-se ali um grupo incrítico, que defende o seu clube com unhas e dentes. Infelizmente não lhes ocorre que aquele fanatismo é só uma prova da miséria do juízo humano. Reconheço que há coisas piores. Mas como alguém me dizia no outro dia, os governos, para evitarem o sarampo da política, recorrem ao cancro do futebol».

Citamos estes comentários para olharmos como se vêem os acontecimentos e, sobretudo, a forma como se regista a atitude das populações que acorrem aos campos de futebol e como reagem, quando os acontecimentos se processam.

Importa criar um ambiente que veja os problemas e os analise com visão calma e bem orientada.

É normal verem-se rostos inebriados com os êxitos desportivos, olvidando o lugar que lhes cabe, ou deve caber, no conjunto da informação nacional.

Os órgãos de informação têm sido registados como elementos de serviço ao desporto e não como um organismo que ordena o serviço de informação que lhe cabe.

Temos ouvido e lido referências ao tempo que se lhe dedica nos órgãos de informação em desfavor da informação que se regista na vida social.

Bem sabemos que o Euro-2004 interessava à Europa e, por isso, compreendia-se que se devia programar com esse objectivo. São acontecimentos que ultrapassam as fronteiras da Nação, as quais se abrem a quem deseje participar neles. E devemos registar que Portugal abriu as fronteiras e estas permitiram que muitos estrangeiros viessem ao nosso País e, embora com objectivo claro, o desportivo, também concorreram para que os visitantes contemplassem a nossa vida, a vida portuguesa, facto que marcou, sem dúvida, os visitantes.

Os portugueses souberam receber e acolher milhares de visitantes, os quais puderam ter uma visão objectiva, pessoal, da nossa vida pública. E os portugueses souberam cumprir esse dever de cortesia.

Importa, certamente, aproveitar estes e outros acontecimentos para que todos nós dêmos as mãos criando uma maior convivência.

Esta é uma das vantagens deste acontecimento.

E pelo que se disse, não só em Portugal, mas na Europa, Portugal foi exemplar.

Não se poderá olvidar esta oportunidade que o Euro-2004 nos deu para expressarmos aos visitantes a nossa maneira de ser e de viver.




Notícias relacionadas


Scroll Up