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José Barroso: nem honra nem glória!

Não se escolheu pois um líder europeu, com provas dadas, mas antes uma personagem que é a bissectriz dos poderes e contra-poderes dentro da União

N/D
14 Jul 2004

Quando Durão Barroso comunicou ao país a sua decisão de abandonar o governo para ser Presidente da Comissão Europeia um misto de perplexidade e orgulho nacional se terá apoderado dos portugueses.
Se porventura a tese de que a referida missão se inscrevia no quadro dos mais elevados interesses do país não fosse totalmente convincente, impunha-se aquele orgulho português de ver um concidadão em tão alto cargo europeu. Afinal, o orgulho que nos toca quando vemos o português Luís Figo conquistar a “bola de ouro”, o galardão que distingue o melhor jogador do mundo.

Esse orgulho convidava-nos a recompormo-nos do choque, a silenciar tudo o que nos parecia ser negativo na decisão tomada e a aceitar resignadamente que uma tão grande distinção era um valor que sobrepunha a quaisquer considerações críticas. Durão Barroso, com ar indisfarçadamente feliz e sorridente, parecia partir com a aura de grande estadista europeu.

Mas depressa essa luminosidade se foi desvanecendo e passámos a desconfiar da avaliação feita pelos dirigentes europeus que teriam visto em Durão Barroso as qualidades de liderança e de estadista que ainda não tinham sido cabalmente demonstradas a nível interno. Afinal uma liderança fraca na oposição ao governo do PS, uma vitória eleitoral face à desistência de Guterres e dois anos como primeiro-ministro de um governo que se vinha esfacelando, não atestam as qualidades de grande estadista. Porquê então a Presidência da Comissão Europeia?

Teria sido o “menor denominador comum”, ou seja, personalidade tolerada pelas grandes potências europeias que se neutralizaram umas às outras, fazendo cair as primeiras escolhas; e aceite pelos pequenos/médios países que receando a hegemonia dos países mais poderosos na condução da União vêem como mais favorável um Presidente vindo de um pequeno país. Não se escolheu pois um líder europeu, com provas dadas, mas antes uma personagem que é a bissectriz dos poderes e
contra-poderes dentro da União.

Barroso não hesitou! Muitos comentadores e analistas têm escrito que estamos perante um convite irrecusável no plano pessoal, sendo, por isso, inatacável a aceitação do cargo. Assim seria se estivéssemos a falar de um qualquer “executivo” de empresa que gere a sua carreira segundo uma lógica de aproveitamento das melhores oportunidades que se lhe oferecem.

Mas a política, na sua nobre dimensão de serviço público, não pode subordinar-se ao primado das oportunidades pessoais. Pequenos políticos fazem-no, mas de um líder, de um estadista, espera-se uma vinculação profunda com as causas públicas que apresenta ao povo e que este sufraga nas urnas.

Quem na vida escolhe aspirar a essa condição contará não só com os dividendos mas também com os sacrifícios que são inerentes.

Ora a decisão de Durão Barroso é fundamentalmente uma decisão de interesse pessoal, apenas compreensível porque imbuída de total indiferença pelas consequências que ela comporta para o país. Deixa atrás de si uma profunda fractura na sociedade portuguesa, uma crispação política sem quartel entre a maioria e a oposição e o Presidente da República encostado à parede, forçado a decidir entre duas soluções, qualquer delas geradora de profundo descontentamento entre os portugueses.

Ao ir para Bruxelas, Barroso é o responsável por uma decisão do Presidente da República (a indigitação de Santana Lopes para primeiro-ministro) que marcará negativamente o final do seu segundo mandato. É triste para os portugueses ver o seu Presidente dilacerado entre duas não-soluções; é preocupante vê-lo fragilizado pela inevitável e intensa contestação à sua decisão, a somar a um governo de legitimidade muito discutível. O sentimento de representação do cidadão nas instituições da democracia e a confiança nelas depositada saem abalados. O orgulho português virou um amargo de boca, perante os estragos desta nomeação de um português para o alto cargo europeu.

Durão Barroso agiu em todo este processo sem a dignidade pessoal e política que se espera de um candidato ao alto cargo de Presidente da Comissão Europeia. Permitiu que o seu nome constasse de uma lista de possíveis candidatos a serem objecto de sondagens, ao mesmo tempo que declarava não ser candidato. Declarava apoiar o candidato António Vitorino, quando ele próprio já era candidato, sabendo que a maioria do PPE no Parlamento Europeu inviabilizava a candidatura socialista.

Pressionou de forma ilegítima o Presidente da República (PR), primeiro, fazendo-nos crer após conversas com o Presidente, que a aceitação do cargo tinha como pressuposto a sua convicção pessoal de que não haveria eleições antecipadas; depois, classificando de violadora do espírito da Constituição uma eventual decisão do PR de dissolução do Parlamento. Traiu a confiança dos seus mais directos colaboradores, forçando o partido a uma unidade artificial em torno de Santana Lopes, algo que resulta mais do dramatismo das circunstâncias do que da convergência de pensamento.

Deslumbrado pelo convite, Durão Barroso esqueceu as suas causas e perdeu a noção da realidade. Considerando o modo, as circunstâncias e as consequências, a sua decisão de aceitar a Presidência da Comissão Europeia é um gesto pífio de que não temos que nos orgulhar. Barroso sai para a Europa pela porta pequena, sem a nobreza de um estadista, sem ética, sem honra e sem glória.




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