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Nossos mitos de Eusébiozinhos…

Vivemos ainda de sebastianismos e de auroras efémeras, com avanços e recuos, que sempre nos adiaram, mas provocamos?

N/D
13 Jul 2004

Na despedida do Presidente da República Alemã, Johannes Rau, socialista, cujas funções exerceu durante cinco anos e mais de cinquenta no partido como um carismático homem de diálogo e abertura, perguntaram-lhe o que pensava fazer no futuro, com tanta experiência política adquirida. «Certamente, retirar-me e viver mais tranquilo», respondeu ele.

A vantagem da democracia está em permitir, após um prazo determinado, um ar fresco, um novo sopro… Por isso, dar ocasião a outros pode ser benéfico para o povo e saudável para a governação. Não ficou nostálgico do tacho, nem quis ser protector de ninguém…

Substituído por Horst Köhler, um antigo liberal, da ala dos so-ciais democratas cristãos, eleito apenas no Parlamento – diferente de nós aos papéis e votos para tudo!… -, no acto de posse, saudou o esforço, inteligência dos seus sucessores, na linha de orientação, que deram ao país, sem melindrar ninguém, com uma lição de optimismo, esperança e confiança, valorizando e enaltecendo o positivo e atenuando o mais negativo, apesar de grande crise…

É filho de romenos, refugiado com os seus pais na Polónia e, mais tarde, na República Democrática comunista. Oriundo de uma família cristã, de oito irmãos, o único com um curso superior, tem um currículo plurifacetado rico. É economista de eleição, foi chefe do Fundo Monetário Internacional em Nova Iorque, com boas relações e alianças teuto-americanas, muito próximo da ideologia social cristã e amigo do teólogo Hans Kung.

Estudou na Alemanha e foi alguém muito humilde, calcorreou pelos seus pés toda uma carreira cheia de sacrifícios, não se coibindo de dizer que ele próprio transportou tijolos e fez de trolha para a sua última casa em Baden-Wurtenberg. É alguém que traz um percurso de vida cheio de experiência humana, luta e privações…

Será isto importante na política? Hoje, mais do que nunca. Mesmo assim, ao aceitar o cargo, um privilegiado a viver na América, com todas as credenciais e honras, decidiu aceitá-lo, a pedido de outros amigos. Mas o argumento decisivo foi este: «Devo retribuir à Alemanha o que me deu de formação na minha infância, como à minha família…» Foi uma esplêndida lição de gratidão e reconhecimento pelo que deve ao país que o acolheu.

Transposto para os nossos políticos portugueses, as duas atitudes têm muito a ensinar-nos: estarão os nossos no mesmo comprimento de onda? Ou vivemos ainda sob a sombra tutelar de fantasmas, ou do paternalismo de alguns que nos flagelaram e trucidaram como povo e nação independente? Vivemos ainda de sebastianismos e de auroras efémeras, com avanços e recuos, que sempre nos adiaram, mas provocamos?

Seremos um povo de sonâmbulos, sempre a recomeçar, não passando da infância política, democrática e mesmo espiritual? Com a tendência de sempre a criar mitos, seremos capazes de nos libertar dos que nos des-troem ou apunhalaram nas costas?

Realmente quem nos vê de fora, mais parece observar um cortejo de mentecaptos, nefelibatas e apaniguados de futebol… reduzidos à condição rasca de alguém que se alimenta de ópio e morfina, não fôssemos um país com um dos maiores índices de consumo… Que idolatram futebol, vivem do fado… sempre servido por “copinhos de leite”, e políticos sem experiência nenhuma da vida, alcandorados só porque viveram sempre no contra ou na oposição.

Não será por isso que muitos dos melhores fogem para o estrangeiro? Mas que povo somos?!… Às vezes, tão francos e sinceros, que mostramos a fraqueza toda de uma só vez, estadeando-as todas ao mesmo tempo, imbuídos de complexos “mátrios e pátrios” nacionalistas ou bacocos…, que nos ruminam as entranhas, sempre devorando os melhores, ou que nos apertam os calos, exigindo disciplina e ordem na própria casa.

Incapazes de resolver os próprios problemas, criticamos ou atacamos os outros, com as mesmas armas com que nos degladiamos ou alimentamos, em complexos sado-masoquistas, trazendo para a rua o que deveríamos calar em família. Abjuro um país assim, como tenho vergonha das linhas com que se cosem ou somos cosidos, como povo constantemente adiado e passadista… Será este um fatídico destino? Ou aleivosia de sebásticos Eusébiozinhos?!…

Precisamos da nostalgia ou saudade do futuro. Teremos de ser auto-disciplinados. Não nos deixemos fascinar pelos êxitos ou glórias, mas estas devem ser como novas pedras, ou alavancas abrindo clareiras, mostrando até que somos capazes e sabemos ser agradecidos.




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