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«E hoje o que vai ser?»

Proponho-me hoje voltar a abrir o álbum das recordações da infância e da adolescência

N/D
13 Jul 2004

Em jeito de introdução a esta crónica direi que cada pessoa vive a Vida no tempo que lhe foi predestinado. Esta última palavra “cheira” a Filosofia…

Faço desde já um parêntesis para referir um professor desta disciplina que tinha tanto de competente como de bonacheirão. A ponto de, perante a resposta bronca de um aluno, ele dizer por vezes que «tu és como um palácio a olhar para um boi».

Ao chamarmos-lhe a atenção que a frase era ao contrário, que o boi é que olhava para o palácio, ele dizia: «Não, não, é mesmo assim como eu digo. É que o boi ainda consegue olhar para o palácio, embora não perceba nada do que vê; mas o palácio é que não consegue olhar para o boi». E fecho o parêntesis.

Posta esta introdução, proponho-me hoje voltar a abrir o álbum das recordações da infância e da adolescência novamente na folha da “minha” mercearia da altura, depois de já o ter feito neste mesmo Diário do Minho em 28 de Agosto do ano passado com o artigo que titulei “Que vai ser hoje?”

“E hoje o que vai ser?” Um texto que posso classificar, tal como o anterior e para usar uma expressão moderna, de “2 em 1” (rememorar esse tempo para quem o conheceu e possibilitar à gente (mais) moça saber como era no tempo dos seus pais ou avós).

Pois bem, comecemos o dia logo pela manhã, com a abertura da loja, como sempre às nove horas. «Ó rapaz, trata-me de pôr lá fora encostadas à parede as coisas do costume para chamar a atenção de quem passa; mas, olha, hoje põe os tapetes do lado direito e as peças de barro, as bilhas e os cântaros, do outro lado. Depois de abrires a outra porta, puxa para lá os sacos do feijão mais o do grão; mas arregaça-lhe bem as bordas para se ver bem a qualidade do produto».

Enquanto isto, talvez porque o seguro morreu de velho e ainda não confiando na inexperiência do marçano, é o caixeiro que vai pendurar mesmo ao lado da porta principal as réguas expositoras das canecas de louça, estas penduradas nos camarões por aquelas abaixo. E numa salada ordenada uma ou duas de cada motivo; porque a “minha” mercearia se situava em Coimbra, podem ver-se as canecas com a Rainha Santa, com uma tricana e um estudante, com a torre da Universidade, com o emblema da Académica; um dia caiu uma destas ao chão e ficou feita em cacos.

«Bom dia, senhores», diz a senhora Maria ao entrar na mercearia como de costume à segunda-feira.

«E hoje o que vai ser, senhora Maria?»

Desta vez a boa da mulher sempre se decide a levar um cântaro de barro, que os de madeira que apreçou na “Feira dos 23” são muito caros; o tanoeiro não faz a coisa por menos, não senhor, o que até se percebe, pois ainda dá trabalho aparar as ripas e fazer os arcos e a asa de aço trabalhado no lume da forja.

«Olhe, vou levar também polvo (era seco e entesado), aí umas três pernas; e um bocadinho de raia em vez de bacalhau, acho que demora menos a demolhar».

A senhora Maria pediu ainda duzentos gramas de areia para arear as panelas (esta areia era mais ou menos moída e manusea-va-se com algum cuidado para não levantar poeira). E quando pediu lixívia, à pergunta se queria da preparada lá na loja (uma parte dela pura para três ou quatro de água; uma vez lá se foram as minhas ricas meias!) ela respondeu muitos senhora do seu pedido: «Não, antes prefiro da que dá na televisão! (naquela época a publicidade na televisão, ainda que a preto e branco, já era tentadora). Olhe, para a semana mato o porco e vou levar uns metros de tripa seca para fazer os enchidos, daquela que os seus filhos às vezes andam a encher com a boca. E depois levo também dois litros de favas secas para pôr de molho e cozinhar com os enchidos».

Atendido um freguês mais retardatário que por pouco não deu com o nariz na porta, o marçano tem ordem para ir embora e o caixeiro despede-se do patrão. Por vezes os filhos deste vão até à loja ter com o pai à hora de fechar; é então altura de darem asas à imaginação. «Se eu cá ficasse na loja a passar a noite, não passava fome.

Comia arroz com chouriço». «E eu era uma lata de atum com batatas cozidas.

Levávamos uma máquina de petróleo que estão na prateleira perto das panelas e tachos, mais uma caixa de fósforos, enchíamos de petróleo e púnhamos álcool desnaturado ali atrás». «E cozinhávamos lá dentro em cima da banca que tem a torneira; era mais fácil».

À sobremesa não se perdiam, pois se um comia um ou dois chocolates daqueles de guarda-chuva ou de lápis grosso, o outro era um bocado de queijo com marmelada partida do tabuleiro. «E bebíamos uma laranjada ou um pirolito porque não há cerveja sem álcool». «E podíamos dormir em cima dos sacos de serapilheira que trazem os fardos de bacalhau ou as batatas».

De «barriga assim cheia e bem dormidos», fazem então companhia ao pai no regresso deste a casa ao fim do dia.




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