Fotografia:
A fé e os feitiços

Deixemos a religião para os espíritos e a bola para os pés

N/D
12 Jul 2004

Notaram-se nos dias que antecederam a final de futebol entre Portugal e a Grécia alguns fenómenos de feiticismo que se uniram aos fenómenos da fé. A religião é um sentimento duma ligação do sujeito matéria ao espírito misterioso do sujeito divindade, no qual ele reconhece o domínio sobre o mundo e sobre ele mesmo e ao qual ele gosta de se sentir unido.

O feitiço é o sentimento rudimentar ou primitivo de expressar esse mistério e o sentir dessa ligação. Muitos têm como religião as manifestações exteriores: uns dançam, outros cantam, outros desfilam. E por aqui se fica, e mau grado é que se esgotem, o sentimento popular, sempre demonstrado nas festividades profano-religiosas.

São estas uma mistura de fé e de feiticismo. No último jogo do Euro-2004 assistimos a muito feiticismo que se dizia de fé. O guarda-redes Ricardo prometia a Nossa Senhora de Fátima uma ida ao Santuário em caso de vitória. Procurava comprar-lhe a vitória a troco dum feitiço prodigioso. O Primeiro-ministro tinha uma gravata como feitiço, dava-lhe sorte e, por isso, a levava para o campo.

O presidente Madaíl ficava-se pelos balneários para não dar azar nas bancadas. Um amigo meu corria a cruzar os pés debaixo dos ferros da lareira para assim ganhar o feitiço do golo mágico. Um meu familiar ia sempre ver os desafios a casa de um amigo porque lá Portugal nunca tinha perdido um desafio; e levava a mesma t-shirt, que nunca lavava, porque assim chamava a seu favor o feitiço da sorte.

Outros pegaram na imagem de Nossa Senhora de Fátima e levaram-na para o campo, alguns para outros altares improvisados onde as preces e os apelos eram muito mais feitiço do que oração. Multiplicavam-se os feitiços por tudo quanto era superstição: um rapaz orava antes dos jogos a Nossa Senhora do Sameiro; um senhor doutor, pessoa muito inteira em suas convicções, chegou a dizer-me: vamos ganhar porque a minha bandeira aponta sempre para dentro de casa; isto quer significar que vamos vencer.

Estas e outras ingenuidades enraízam no paganismo – tudo são réplicas do bezerro de ouro -, isto é, na adoração de falsos deuses, mas demonstram também como o acreditar nos poderes sobrenaturais está bem profundamente implantado na alma de toda a gente e não apenas nas almas mais primitivas; e dizem-nos como aquela ligação ao misterioso é uma necessidade e um apelo de cada sujeito.

Há aqui também um desenvolvimento de índole particular. Pensamos que cada decepção de hoje encontra em si uma punição por falta de merecimento de cada um.

Parece, assim, poder observar-se a tendência para a construção de uma religiosidade individual. E como não é uma ciência que se pode aplicar a todos por igual, expressa-se muitas vezes, em cada um de nós, pelo subjectivismo dessa ligação ao misterioso.

A verdade é que os feitiços usados por milhares de portugueses não chegaram para vencer a defesa granítica dos gregos. Não é, nem nunca será, certamente, uma disputa entre o Atenágoras de Atenas e o Papa de Roma, isto é, entre ortodoxos e católicos. Deixemos a religião para os espíritos e a bola para os pés.




Notícias relacionadas


Scroll Up