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Sophia

Os assuntos do mundo sempre preocuparam Sophia, que também teve uma ocasional intervenção partidária a seguir ao 25 de Abril.

N/D
11 Jul 2004

«Mesmo que eu morra o poema encontrará/ Uma praia onde quebrar as suas ondas», observa, em “O Poema”, Sophia de Mello Breyner Andresen. Transbordam sempre de sabedoria as palavras de Sophia; as palavras certas que continuam à disposição dos que buscam um mundo mais justo, quer dizer mais poético; um mundo mais verdadeiro. Como Sophia escreveu na revista “O Tempo e o Modo” (Junho de 1963) «a poesia, só por si mesma, propõe à cidade um fundamento de verdade. E, só por si mesma, a poesia é uma forma de resistência contra todas as indignidades e mentiras. O verdadeiro poeta é sempre um resistente. Mas o falso poeta, sejam quais forem as causas que
diz defender, é sempre um conivente».

A poeta (para usar a palavra que ela preferia) ensinou que «existe uma unidade de verdade. Aquele que busca uma relação justa com o mar, com a pedra, com a árvore contribui para uma relação mais justa entre os homens». É verdade que «cada um tem os seus termos, os seus caminhos. Um falará de rochedos e vento, outro falará de cidades e lágrimas. Mas, porque a poesia é a nossa explicação do universo e a nossa mais íntima implicação na realidade, há temas a que nenhum poeta pode ficar alheio, pois esses temas invadem a nossa vida e não os viver é não estar vivo. Quem pode ignorar a morte, o amor, a busca de liberdade e de justiça?», perguntava Sophia.

Sobre a morte – a morte própria (“Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar”) e a morte alheia (“Sinto os mortos no frio das violetas”) -, o amor (“De todos os cantos do mundo / Amo com um amor mais forte e mais profundo / Aquela praia extasiada e nua / Onde me uni ao mar, ao vento e à lua”), a busca de liberdade (“Quando a pátria que temos não a temos / Perdida por silêncio e por renúncia / Até a voz do mar se torna exílio / E a luz que nos rodeia é como grades”) e de justiça (“Aqui me resta apenas fazer frente / Ao rosto sujo de ódio e de injustiça” ou “Sei que seria possível construir o mundo justo”), escreveu Sophia poemas memoráveis, tantas vezes com o mar ao fundo.

«Porque a poesia é a nossa mais íntima implicação na realidade ela é por si mesma compromisso e participação», observa Sophia. «O poeta não vem apenas contar e cantar o mundo. Vem também modificá-lo». Recordando as palavras de Mallarmé, que dizia que o fim da poesia era «dar um sentido mais puro às palavras da tribo», Sophia apontava para bem mais longe: «Eu creio que a poesia vem também dar um sentido mais justo aos actos da tribo. Pois as palavras não estão limitadas a si mesmas. Não é possível purificar as palavras sem purificar também a relação do homem com a realidade».

Por isso, acrescentava a autora de Dia do Mar, Livro Sexto e O Nome das Coisas, «não distingo entre poesia gratuita e poesia comprometida». É que «não há poesia gratuita». A distinção que se pode fazer é entre poesia e esteticismo. «Para o esteta a poesia é um ornamento da vida. Para o poeta a poesia é uma forma de salvação sua e dos outros. E esta busca de salvação não pode ser alheia à busca duma forma concreta e prática de justiça».

Os assuntos do mundo sempre preocuparam Sophia, que também teve uma ocasional intervenção partidária a seguir ao 25 de Abril. «Eu, muitas vezes, falei em comícios, e sempre fiz o possível para falar como um intelectual, partindo do princípio que todo o ser humano tem uma inteligência. O público sempre acompanhou. Mas, de uma maneira geral, fala-se com lugares comuns, frases feitas, demagogia». recordou a poeta numa entrevista (Contemporâneo, 15 de Março de 1989). Depois, fartou-se. Não queria «falar no meio de uma berraria», «quando já ninguém ouve nada». A política, aliás, já olhava com desconfiança o empenho de quem era capaz de «dizer uma coisa certa».

A política já estava entregue aos profissionais, às «pessoas que têm uma noção muito parcial da realidade, muito desencarnada», nota Sophia. «Eu às vezes penso como é possível que o Mundo seja tão mal governado. É tudo advogados e economistas».




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