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Fascínio eterno da festa

O futebol alargou agora a festa de todos e deu-lhe um colorido próprio. Como nunca. Antes do resultado, já havia resultado. E esse também conta, porque perder não deve estragar uma festa que foi de todos

N/D
9 Jul 2004

Sempre pensei que não é um bom caminho esvaziar o sentido da festa, mesmo quando, porventura, haja alguns exageros na maneira de a celebrar. No momento há que respeitar. Uma expressão popular convida à compreensão e à abertura de alma nessas ocasiões: «festa é festa!»

O dia-a-dia sem festa no horizonte torna-se pobre e desumano. Quem der sentido ao trabalho, tem necessidade da festa e raramente retira a esta o seu verdadeiro sentido.

No fundo, é sempre a vida à procura do sentido. Sem ele, depressa se esvazia.

Na visão bíblica, a natureza criada, logo adjectivada de boa e de bela pelo Criador, fica empobrecida sem o descanso necessário do sétimo dia. É a paragem necessária para que o homem a possa contemplar e admirar, e receber da natureza e da vida a riqueza que para si ela comporta. Por isso, esse dia é festivo, é desejado ao longo da semana, reage à tirania do relógio, anseia por convivência, não dispensa o sol, desafia intempéries… É o dia que ilumina tanto a semana que terminou, como a que vai começar.

O povo, quando celebra a festa, a de todos a ritmo semanal, e a que é especialmente a sua festa, uns dias por ano, tem outro rosto, nele se espelha libertação e alegria, dele se esconjurou, ainda que apenas por horas ou dias, o que pesa, o que aborrece, o que cansa. Na festa ninguém se diz cansado, ainda que o cansaço escorra por todos os poros do rosto e a voz seja roufenha por gritos que só se dão de raro em raro. Que fascínio, o da festa!

Impressiona ver a gente do povo, já um ano antes, a preparar a festa lá da terra, a calcorrear ruas para recolher ofertas, a fazer, ainda bem longe, contas e contactos para que nada falte, a tirar tempo ao descanso semanal para que a sua festa fique na memória de conterrâneos e vizinhos. E estes trabalhos ficam compensados, porque a festa resultou, resulta sempre.

E, terminada esta, já se começa a pensar na do ano seguinte. Exagero? Quem é que não pensa no fim-de-semana próximo, quando apenas termina o que acaba de se gozar? Quem é que não pensa nas próximas férias, logo no regresso das que estão a chegar ao fim?

Sempre o fascínio da festa. Uns a querem ruidosa, outros mais calma e serena. Uns com muita gente, outros apenas com familiares e amigos. Uns à volta da sua casa, outros por terras de longe, com desejo de esconjurar, por um tempo, um dia-a-dia sempre igual. Mas todos querem a festa, todos, a seu modo, fascinados e não a podendo dispensar, mesmo quando têm de a reduzir no tempo ou no espaço da sua celebração.

O futebol alargou agora a festa de todos e deu-lhe um colorido próprio. Como nunca.

Antes do resultado, já havia resultado. E esse também conta, porque perder não deve estragar uma festa que foi de todos.

A festa é um direito e é um dever, é uma necessidade. Esteve à vista.




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