Fotografia:
Apontamentos “ao acaso”

1 A descrição do quadro surgiu-me por mero acaso, sem estar à espera. Ou será que temos o destino traçado, até nas coisas mais simples? A resposta estará talvez de acordo com o modo como cada pessoa pensa.

N/D
8 Jul 2004

E a “pintura” começou, espontânea, por meio de palavras. De alguém que é “pai” de novo na vida, quando retirado da activa, já mora na casa dos sessenta e se senta para descansar enfim.

“Há poucos dias passei a tarde com o meu neto; os pais precisaram da minha ajuda (“que chatice”, como se costuma dizer!) e eu disse-lhes logo que sim. Ele só tem um ano e meio, mas já está muito giro” (mas qual é o neto ou a neta que não está?!).

Seguiu-se então o desfiar de um rosário de gracinhas, omitidas não porque haja “pudor de as contar seja a quem for”, mas simplesmente para ficarem entregues à imaginação de qualquer artista que queira incluir aqui a sua pintura.

E continuou: “Agora entendo o sentimento que os meus avós nutriam por mim quando eu era criança e passava umas temporadas com eles. A minha avó, quando ia trabalhar para o campo, no regresso ao fim do dia trazia-me sempre de lá alguma coisa, nem que fosse uma flor daquelas semeadas pela natureza, ou umas amoras, que me oferecia com um sorriso maquilhado de pó empapado em suor; tanto era pó-de-arroz, como de milho ou de centeio, pois que pó-de-chipre não era de certeza porque se via e se cheirava à légua que não provinha de sementes do abelmosco.

Ainda hoje, quando vou lá à aldeia, percorro os mesmos caminhos de então “acompanhado” por ela; e “aqui” colho uma flor em sua memória e “acolá” uma amora, que trinco com um sabor agridoce. Ela era de uma ternura muito doce: quando ia à venda fazer as compras daquilo que nem a terra nem os animais lhe davam trazia-me sempre rebuçados; e fazia sempre questão de dizer que não era daqueles que se recebia como troco quando os tostões faltavam na gaveta ou na caixa do dinheiro do vendeiro, mas que eram sempre pedidos para o “meu menino” como se indispensáveis para a boca fossem. Naturalmente que só lá ia uma vez por semana ou, muito raramente, duas”.

2. Aqui há dias ia rua fora quando “veio ter comigo” um quadro pouco comum: uma pessoa que seguia pelo passeio estava a remover calma e cuidadosamente para o lado uma casca de laranja. Era naturalmente sua intenção evitar que alguém mais incauto ou distraído escorregasse e se pudesse aleijar. Estava a praticar o que se costuma designar por uma boa acção.

De imediato dei comigo a divagar tendo como ponto de partida este quadro. Comecei por me lembrar daquela historieta dos três meninos e da velhinha. O primeiro ajudara a senhora a atravessar a rua; o segundo ajudara o primeiro nessa acção; e o terceiro, por sua vez, auxiliara os outros dois. À pergunta por que motivo tinham sido necessários os três, eles responderam de imediato: “É que ela não queria atravessar.”

De seguida vieram-me à ideia aquelas “cascas de laranja” (ou “de banana”…) que por vezes nos surgem no caminho. Quem as atira, tal como aquela que esteve na origem deste apontamento, fá-lo sem se incomodar minimamente com quem possa vir atrás de si. Como por exemplo aquela pessoa que a conduzir entrou em determinado local em sentido proibido porque isso simplificava a sua manobra; e, quando lhe observaram tal, lançou como resposta uma expressão de desprezo, como que a dizer “Não me chateie.” Será que os sinais de trânsito são de primeira ou segunda, conforme os locais onde estão colocados?!

Ou como por exemplo também aquelas “ca(s)cas” que surgem por vezes junto às árvores ou, pior ainda, no meio dos passeios e que servem para os tais incautos ou distraídos tirarem o molde do calçado que levam nos pés. Quem é que não sentiu já na pele (do sapato) este descuido?!

3. Já que estou (apo)sentado, aproveito o tempo mais disponível para saborear com outra serenidade e descontracção episódios que à profissão dizem respeito. Como por exemplo este verídico, embora anedótico que recordo. Dessa vez o professor saiu-se bem… O aluno não engrenara em determinada disciplina; de tal modo que no último teste do ano, e talvez para dar tanga ao “setôr”, substituiu o seu nome real por aquele já conhecido “Passos Dias Aguiar Mota”.

O professor não se deu por achado e pela primeira vez entregou os testes chamando à secretária, um por um, todos os alunos, proferindo o último apelido de cada um deles. Para o fim ficou o “Mota” que, sem contar com tal entrega, lá acabou por ir buscar o seu teste. O prof. confrontou-o então com o facto de não ter escrito o nome completo na folha de teste. “Faltou-te pôr aqui um apelido: Passos Dias Santos Aguiar Mota”. O jovem, que fora por lã, veio tosquiado.

Quando terminei este terceiro apontamento resolvi ir ao alfarrábio ver a explicação da última frase. E li então que este provérbio terá a ver com o castigo que em tempos seria dado àqueles que tosquiavam ovelhas que não lhes pertenciam e aos quais, uma vez apanhados, era rapada a cabeça como castigo, para os envergonhar.




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