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Ajudar à festa, incentivando-a!

A comunhão com os homens e mulheres do nosso tempo impele-nos a ajudar à festa, incentivando-a, de olhos postos em Cristo e os pés bem assentes na terra onde estamos, respeitando os espaços, os tempos e as funções … dos outros e as nossas

N/D
5 Jul 2004

Uma das facetas mais controversas do insistente e árduo diálogo entre a Igreja (hierarquia e mesmo instituição) com a vertente popular mais ou menos religiosa é a das festas, sejam elas com a cobertura de santos, à volta de algum santuário ou mesmo a partir de tradições relativamente aceites, toleradas ou promovidas.
De tempo a tempos surgem tentativas, por parte dos responsáveis das Dioceses, de corrigir (possíveis) erros, tanto dos fautores como dos mentores ou até dos promotores dessas festas. Mesmo que recorrendo a uma fundamentação teológica atenta, aberta e pluralista, muitas dessas festas escapam à formatação religiosa de índole cristã mais restrita. Nesta matéria tudo – e tem sido muito – quanto se faça continua a ser muito pouco para as necessidades mais prementes.

De facto, quem analisar as contas da ditas ‘festas religiosas’ encontrará uma verba residual – talvez vinte por cento, numa visão optimista – dedicada às pretensas actividades de índole religiosa, que, na maior parte dos casos, não passa de momentos tradicionais, como procissões, sermão e (de vez em quando) algo de natureza mais preparatória, na designação de tríduo, novena ou ainda através de reuniões de formação com os mordomos/as e ‘comissões de festas’, tanto ocasionais como permanentes.

Com referência ao primeiro domingo deste ano (2004), o Arcebispo de Braga fez publicar ‘Orientações pastorais sobre as festas religiosas’. Neste documento D. Jorge Ortiga faz uma análise desta temática, apontando correcções urgentes sobre a matéria, tais como: a constituição da ‘comissão de festas’ e sua articulação com o pároco; a prestação de contas da festa e sua coordenação com o conselho económico da paróquia; a elaboração dos cartazes e as iniciativas eclesiais com especial incidência na celebração dos sacramentos da reconciliação e da eucaristia (em particular a ‘da festa’ e o respectivo sermão); o modo de organizar e de fazer as procissões, como ocasiões de catequese, expurgando-as de costumes menos evangélico, sem que perturbem o trânsito de outros; enquadramento das promessas e como inserir estas festas religiosas no contexto dos santuários, na perspectiva de peregrinações e romarias.

Diante deste documento – e alargando os horizontes da sua incidência particular – surgiram-nos algumas breves reflexões:

* Da fé nasce a festa. Nem que seja de forma reduzida aos ciclos da vida – nascimento, casamento, aniversários de acontecimentos marcantes pessoais, familiares ou colectivos – a fé propõe-se em atitude de festa. E, se não forem enquadrados pela simbologia religiosa (e sobretudo cristã), esses momentos são celebrados de modo paganizado, isto é, fora de Deus e com outros ritos mais ou menos exotéricos.

* Da festa humana se celebra Deus – diz o povo e com razão: ‘um santo triste é um triste santo’. A Igreja tem procurado preencher, ao seu nível, os momentos mais significativos do ritmo comunitário: páscoa, pentecostes, natal, santos, (mártires, confessores, virgens, etc.), padroeiros… em ordem a que esses tempos festivos não se tornem ‘perigosos’ para a moralidade pública e pessoal. O espaço do adro (mais ou menos amplo) e outros espaços adjacentes à igreja-edifício permitiam controlar intromissões, corrigir abusos e orientar comportamentos. De forma controlada as festas religiosas serviam de honra aos santos e proveito aos fiéis. Tudo seria fácil se o equilíbrio e o bom senso continua-se entre os vários participantes!

* Da festa popular aos populares em festa. Com a rebeldia à censura eclesiástica se foram extremando posições: por vezes os ‘santos’ servem de cobertura a outras intenções, projectos e vaidades, tanto pessoais como bairristas ou de grupo. A distinção entre festa ‘religiosa’ e ‘profana’ – mesmo nas ditas festas da religiosidade popular – torna-se salutar e, quantas vezes, benéfica em ordem à definição dos campos de cada um dos intervenientes.

* Da festa cristã à evangelização. Tendo em conta o mais genuíno da festa de natureza cristã vão surgindo tentativas de fazer dela um espaço de evangelização, criando condições para que ela se torne oportunidade de dar glória a Deus, honrando os Santos (incluindo a Virgem Maria), em tempo de lazer/recreio e aprofundamento cultural, tanto popular como cristão. Neste âmbito tudo o que se consiga realizar servirá de incentivo a fazer melhor, em abertura à diversidade dos vários sectores.

Quantas vezes uma simples marcha popular – dizemo-lo por conhecimento de causa – poderá ser oportunidade de anúncio de Cristo! Quantas vezes um gesto de simpatia da Igreja – dizemo-lo em razão de vivência – poderá degelar corações aos desafios da Palavra de Deus! Quantas vezes uma atitude de acolhimento à diferença – dizemo-lo por conhecimento e até alguma vivência – poderá diluir preconceitos para com os católicos ‘sisudos’ e seus responsáveis!

* Da Igreja em festa à nova evangelização deste mundo. Na medida em que sabemos o que somos, assim poderemos fazer propostas àqueles/as que esperam ver o rosto de Deus em nós e através de nós. A comunhão com os homens e mulheres do nosso tempo impele-nos a ajudar à festa, incentivando-a, de olhos postos em Cristo e os pés bem assentes na terra onde estamos, respeitando os espaços, os tempos e as funções … dos outros e as nossas.

Assim o cremos, desejamos e pretendemos construir.




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