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O futebol: religião ou ópio dos pobres?

Mostrámos que tivemos capacidade organizativa e vigor de luta. Por que não nos unimos noutras questões mais importantes, onde está em jogo a nossa sobrevivência como povo e nação mais independente?!

N/D
2 Jul 2004

No meio da euforia pateta, patética ou peripatética, nem nos apercebemos das consequências negativas de certas exibições com derrotas no futebol. Praticamente todos os países ricos foram eliminados, ficando todos de joelhos perante a República Checa…
Um país mal refeito do socialismo comunista – cujas consequências sofreu na carne e no sangue – mesmo assim mostrou aos todo-poderosos ricos da Europa que as pernas não estavam enferrujadas e foi capaz de eliminar os grandes e arrogantes.

Vamos sentir a factura com menos participação, tantos hotéis livres, abandonados antes do tempo, conforme ouvi na Alemanha do gestor de um célebre hotel, em que se pedia aos turistas que vies-sem aproveitar ofertas especiais de promoção.

Verificou-se que os ricos europeus estão em crise, e talvez alguns dispostos a deduzir que «isto de futebol é algo para os países pobres como o Brasil», ou na África do Sul, para os negros, onde os brancos preferem o rugby…

Não sei, mas, por vezes, tive esta sensação, como no meio de tanto entusiasmo português; quer aqui, quer lá, onde vegetam os emigrantes sentiu-se a necessidade de afirmar algo que nos imponha, agarrando-nos como tábua de salvação ao futebol, o que nos resta. Sem dúvida.

Pareceu estarmos no tempo da minha infância, em que Portugal se tornou mais conhecido no estrangeiro pelo Eusébio do que por Salazar com a sua política colonial… Mais tarde, tornar-se-ia famoso pelos “emigrantes”, como moeda de troca para a Europa, a consequência de pobreza estrutural e recusa, ou fim da guerra colonial.

Hoje é o futebol. Ouvi falar de Portugal mais do que em toda a minha vida no estrangeiro, com comentários desde “Futebol, uma religião?…” a reportagens, nas zonas e bairros mais pobres de Lisboa, de crianças a jogar com uma bola de trapos na rua, atingindo as pessoas, ou mesmo os automóveis com a senhora Bola! Somos assim cultores de uma nova “religião”, esquecendo outras mágoas, alienando-nos de outras questões ou causas onde nos deveríamos envolver e empenhar de forma mais radical.

É certo que o Euro2004 mostrou uma qualidade que raramente se viu. Mesmo a selecção portuguesa soube honrar o nome. Teve a vantagem e foi pretexto para mostrar um outro Portugal turístico, fora dos destinos habituais, como um Portugal remoto, que nos deveria envergonhar, mas com paisagens e zonas paradisíacas ecológicas, que hoje não se encontram em qualquer parte do mundo.

Saberemos valorizá-las, conservando-as mesmo autóctones? Saberemos desenvolver o que ficou como amostra das nossas qualidades e potencialidades para um futuro mais promissor, deixando de ser os parentes pobres da Europa?

O futebol, que envolve milhões nos seus negócios e interesses, estaria disposto, mesmo com os seus jogadores, a ceder alguns salários e impostos para a transformação do País?

Gostaria de ver as apostas e desafios no futuro para a reconversão de mentalidades e melhoria de nível sócio-económico, com outros políticos mais comprometidos, nacionalistas, com menos tricas partidárias, e a empunhar bandeiras pelo bem comum, lutando sobretudo pelas aldeias abandonadas, com níveis ainda muito baixos… Ou limitar-se-ão os jogadores a vender o seu vedetismo a clubes estrangeiros, ou a viver, faustosamente, com as somas de bilhetes comprados por apaniguados e fanáticos, que a tudo se hipotecam para ver o ” desporto-rei”?!

A economia não é tudo. Há outros valores mais importantes… Mas o tudo sem economia é ou pode ser nada! Não gostarão alguns de viver de nadas pomposos? E de se afirmar por valores ou contra-valores, mesmo vigentes, que todavia nos atraiçoam ou se atraiçoam nos projectos e outras ambições que devíamos ter?…

A crise dos grandes mostrou-se também na baliza… Mas os pequenos, com o futebol, serão capazes de ombrear com os grandes, pelo menos de serem mais ambiciosos?

Mostrámos que tivemos capacidade organizativa e vigor de luta. Por que não nos unimos noutras questões mais importantes, onde está em jogo a nossa sobrevivência como povo e nação mais independente?!

É que o futebol não é a panaceia dos pobres, nem o placebo para as fraquezas, como ópio ou edolcurante para as nossas frustrações e deficiências, mas deve ser o cáustico ou a vitamina a levantar-nos para aquilo em que temos vivido adormecidos, ou narcotizados por certos políticos…




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