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Portugal e a nova realidade comunitária

O actual panorama do abandono escolar, além de ser uma vergonha comunitária, é também um reflexo da doença que atinge o sistema educativo português

N/D
1 Jul 2004

A recente admissão dos 10 países do leste europeu na União Europeia veio colocar sérias advertências aos políticos, aos empresários, aos trabalhadores deste país. Com esta adesão em bloco, alargou-se o quadro de potenciais e reais concorrentes ao nosso país, que pugnarão por receber o mais que puder, quer seja em ajudas monetárias, quer em investimentos.
Contudo, veio também abrir novas janelas de debate e de reflexão, criar novas expectativas e oportunidades de mercado, estimular as nossas capacidades e energias de produzir, de inovar e de competir e proporcionar a abertura de outros caminhos em direcção a um desenvolvimento mais sustentado. O desafio está lançado e a solução está nas nossas mãos. E não podemos mais fazer de conta que tudo vai continuar na mesma forma, ou seja, vacilante, serena, resignada.

Ainda estamos longe daquela Europa social, sem nacionalismos exacerbados e sem “fronteiras” de qualquer espécie. Neste cenário, é mais que certo que cada país irá puxar a brasa, o mais que puder, para a sua sardinha. E é também certo que cada um irá esgrimir e apresentar os melhores argumentos para obter as maiores vantagens, benefícios e favores em todos os aspectos.

E, de facto, os nossos novos parceiros têm, à partida, alguns trunfos fortes que os usarão a devido tempo: uma maior escolarização, uma formação profissional dos seus trabalhadores mais qualificada e, acima de tudo, uma mão de obra muito mais barata.

Poder-se-á acrescentar ainda a estas razões a situação geográfica desses países. É menos periférica e está, obviamente, mais perto dos centros de decisão e do eixo franco-alemão, o que lhes perspectiva uma integração sem grandes sobressaltos e poderão ter até um desenvolvimento mais acelerado.

Portanto, no meu ponto de vista, haverá mais dificuldades de impor os nossos produtos no mercado comunitário, assim como captar novos investimentos, embora o nosso primeiro-ministro afirme convincente e categoricamente que o nosso maior concorrente é e será a vizinha Espanha e não os novos membros. Mas uma coisa é a realidade e outra coisa é o desejo do primeiro-ministro. Estar preparados para enfrentar a concorrência é uma medida prudente e sensata.

Chegou o tempo de não podermos mais continuar à espera dos fundos de coesão enviados pela União Europeia como garante de receitas extraordinárias que permitem avultados investimentos nos mais variados sectores da nossa economia. Temos decisivamente de apostar em nós, na nossa capacidade de criar e de produzir. Temos que modernizar as nossas unidades produtivas, de diversificar os investimentos, de desburocratizar a máquina administrativa do Estado e investir fortemente na formação profissional dos trabalhadores.

Estes pressupostos são, de facto, chavões consensuais, fáceis de pronunciar, mas muito complicado de os concretizar. É verdade. Em abono desta tese, temos exemplos de outros países, quiçá com menos potencialidades naturais do que o nosso e que souberam colocar-se nos lugares cimeiros no desenvolvimento e na qualidade de vida das suas gentes. E qual foi o segredo deste sucesso?

A resposta tem sido apontada com muita insistência, oportunidade e realismo, nestes últimos tempos, pelo Presidente da República: apostar na educação e na formação dos cidadãos. Apostar sem paixões, sem demagogia, sem hesitações e sem fins puramente eleitoralistas. Apostar com coragem, com racio-nalidade, com decisão e determinação. Pensar na educação com a certeza que provocará mudanças significativas neste povo.

Não é possível adiar por mais tempo esta ineficácia, esta pasmaceira do nosso sistema de ensino. O ensino tem que ser reformulado por quem sabe, por quem tem experiência na matéria e por homens com grande visão estratégica e de futuro. Não há mais tempo para amadorismos ou para pequenas operações de cosmética. É necessário reformar com alma, com cons-ciência, com sabedoria e com qualidade.

Temos o direito de ocupar um lugar de destaque dentro desta Europa desenvolvida, abastada e democrática. Temos o direito de exigir àqueles que nos governam que sejam inteligentes e determinados. Temos o direito de exigir um serviço de qualidade, quer seja na educação, na saúde, na justiça, na formação profissional.

Deixemos que a mensagem transportada na presidência aberta pelo Presidente da República passe livremente por este país de lés-a-lés. A educação tem que ser encarada como causa nacional. E daí partir para o combate ao abandono escolar de tantos jovens que, por várias razões, desperdiçam a oportunidade de se formarem como cidadãos bem informados e torná-los aptos a responder aos mais variados desafios.

O actual panorama do abandono escolar, além de ser uma vergonha comunitária, é também um reflexo da doença que atinge o sistema educativo português.

A escola e a formação dos portugueses terá que ser uma ideia viva e sentida por todos como o garante de um modelo de sociedade mais responsável mais livre e mais desenvolvida.




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