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A propósito do Euro

Há valores pátrios muito superiores ao futebol mas para os quais se não chama a necessária atenção dos portugueses e em relação aos quais se não geram os necessários consensos

N/D
1 Jul 2004

Embora pela televisão só tenha visto um jogo de princípio a fim, mentiria se dissesse que não tenho acompanhado com interesse o comportamento da selecção portuguesa neste Euro-2004. Tenho-me alegrado com os seus êxitos e fiquei triste com o desaire inicial, frente à Grécia.
Continuo, todavia, a considerar que se dá ao futebol uma importância que não deve ter na vida do comum das pessoas.

Continuo a pensar que se está a utilizar o futebol como uma espécie de narcótico para trazer as pessoas distraídas de assuntos muito mais importantes, merecedores da sua atenção e do seu empenhamento.

Continuo a não encontrar justificação para os elevados dinheiros públicos canalizados para o futebol numa comunidade onde a falta de verba não tem permitido satisfazer necessidades básicas dos cidadãos.

Discordo do alarido feito por ocasião das vitórias de Portugal, que considero um exagero. Uma coisa são as naturais e compreensíveis manifestações de regozijo e outra, esse buzinar estridente e incomodativo de automóveis ou o rufar de tambores que perturbam o sossego de quem tem o direito a descansar.

E ainda dizem que os combustíveis estão caros e que vivemos em tempo de crise económica! Que faria se estivéssemos em tempo de vacas gordas! Será que a poluição sonora só o é quando os sinos tocam a partir de certas horas ou há altifalantes a funcionar em torres de igrejas?!

Perante o futebol continua a haver valores e direitos a respeitar, o que, infelizmente, em certos meios, não tem acontecido. Há exageros que têm de ser denunciados e evitados. A não ser que achem bem que, por causa do futebol, se enverede por caminhos de histeria colectiva.

Na minha opinião é pena que tenha sido apenas o futebol a unir a maioria dos portugueses e a fazer despertar em nós sentimentos nacionalistas (que não xenófobos). Há questões muito mais importantes a propósito das quais deveríamos também dar as mãos. Há valores pátrios muito superiores ao futebol mas para os quais se não chama a necessária atenção dos portugueses e em relação aos quais se não geram os necessários consensos.

Acho muito bem que o futebol contribua para aproximar os povos. Acho muito bem que se acolham com respeito e amizade as pessoas que o futebol nos traz e que para isso se crie um ambiente festivo. Mas que se não aproveite o aumento da procura para inflaccionar os preços. Que se não vaiem as equipas que têm um comportamento menos bom. Que se não considerem inimigos os elementos das outras selecções.

Que se reconheça o mérito e a capacidade dos opositores. Que se não usem expressões depreciativas para com os que contribuíram para resultados que nos não agradam.

E já agora, permitam-me que considere de muito mau gosto isso de andar a distribuir panfletos a denegrirem a imagem de Portugal, como se fossem os outros a virem resolver os nossos problemas, a lavarem a nossa roupa suja, a porem ordem na nossa casa.




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