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O golpe de Estado

Freitas do Amaral, com mais uma pirueta (afinal não foi ele protagonista duma soluçãoem tudo idêntica à que agora contradiz, com Balsemão?), quer mais uma vez ganhar pela esquerda aquilo que à direita nunca conseguiu

N/D
30 Jun 2004

Desde a semana passada que estamos em suspenso. Primeiro, o país recuperou parte do seu ego com a campanha da selecção nacional de futebol. Logo depois, ficamos em suspenso com a notícia da ida do primeiro-ministro Durão Barroso para Bruxelas.

E se algo de elogioso esta notícia tem para o país, não devemos por um minuto trocar os benefícios europeus por estabilidade. Para as empresas e para a economia, este podia e deveria ser o momento. O da recuperação da confiança. O daquele pequeno impulso psicológico, que alastrado a dez milhões de agentes económicos, levasse à tão desejada retoma.

Ora a confiança dos agentes económicos não pode nem deve ser hipotecada pela crise política que se parece querer instalar. Mas as declarações dos vários agentes políticos envolvidos não auguram nada de bom. Pois onde se impõe discrição e decoro, temos uns a discutir em público, outros a querer reforçar poder, outros a querer disputar pastas no novo executivo, e outros ainda que querem conseguir na secretaria aquilo que não detêm no parlamento eleito.

Nada de mais errado. Podia-se discutir a ida do primeiro-ministro para Bruxelas, ou se o seu Vice é ou não uma boa solução. Como outros, irresponsavelmente, já o fizeram. Mas essas decisões são pessoais, e dependem depois duma maioria parlamentar que existe. E reforçar a ideia do principal valor. O da estabilidade política.

O que o país necessita é de uma maioria parlamentar e de um Governo nela assente.

Como qualquer país civilizado. Onde o primeiro-ministro não é nem nunca foi eleito directamente. Mas depende dum parlamento e de um partido que nele forme maioria.

E se ela existe, a solução nela deve, discretamente, ser encontrada.

A mudança de Governo que se impõe pela mudança de primeiro-ministro é uma oportunidade que não pode nem deve ser desperdiçada. Não tanto na habitual fulanização das mudanças de nomes. Mas fundamentalmente na reorientação de políticas.

Na enfatização de que as políticas se fazem para os agentes económicos. Na assumpção de que as PME’s (Pequenas e Médias Empresas) são o motor da economia.

Na conclusão que aqueles e estas não estão em Lisboa. E que é junto delas que deve estar o poder de decisão.

Sejamos claros: os problemas do país e suas soluções não são aquelas que fazem as manchetes de televisão ou dos jornais. Estas, muitas vezes, dão mais importância às birras das personalidades mediáticas, que elas próprias se encarregam de criar, do que aquilo que o país diariamente produz. O país necessita de políticos conhecedores do terreno e de ministros com os pés no chão. E isso é que é relevante ponderar e divulgar.

Neste cenário propenso aos comentadores do regime, surpresas, ou não, aconteceram.

A ministra das Finanças incendiou o tumulto, mostrando a falta de sentido de Estado, que afinal é o seu timbre. Freitas do Amaral, com mais uma pirueta (afinal não foi ele protagonista duma solução em tudo idêntica à que agora contradiz, com Balsemão?), quer mais uma vez ganhar pela esquerda aquilo que à direita nunca conseguiu.

A agit-prop tem afinal mais formas. Voltamos às manifs como substitutas do voto universal. Era assim que se fazia em 75. Com cercos ao Parlamento ou ao Palácio de Cristal. Querendo legitimar na rua aquilo que o povo recusava nas urnas. O jornal nacional de referência do centro-esquerda faz uma clara campanha por eleições antecipadas, dando espaço, apenas, às personalidades que se pronunciam por eleições. Como a Dra. Ferreira Leite. Que até tem razão.

É que há, de facto, um golpe de Estado em curso. Só que não é no partido dela. É no país. Em Lisboa. Em Belém e nas redacções dalguns jornais. E com o apoio daqueles que, como ela, sobrepõem a carreira política ao interesse nacional. E que fazem da democracia parlamentar um mero alimento de máquinas partidárias.

Sejamos claros: eleições, a existirem, acabam com a frágil retoma que está em curso.

E ressuscitam o marxismo ultrapassado da moribunda direcção do PS. Mesmo com o PS todo à espera do avanço de Sócrates. Que só esperava pelo Congresso. E o
Dr. Sampaio bem pode tentar reviver os tempos do MES. Da intriga e da política extra-parlamentar. Mas a responsabilidade não pode deixar de lhe ser imputada. Se chancelar a crise e nos reconduzir à recessão.




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