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793. Meu caro Zé:

1 Agora que a poeira assentou, vamos reflectir sobre as eleições europeias. E mais como mero exercício de cidadania que de especulação jornalística ou jogo político-partidário.

N/D
30 Jun 2004

E, numa primeira análise, algum povo votou e escolheu. Cumpriu-se alguma democracia. Melhor, alguma democracia representativa, que não é, seguramente, a forma suficiente de o povo impor a sua vontade, cumpriu-se.

Por isso, a abstenção aumentou. Mais de metade dos cidadãos eleitores não votou o que, à partida, tem uma leitura simples: o alheamento por este tipo de eleições e a que a futebolização da campanha (com apitos e cartões amarelos e vermelhos) e o predomínio do insulto sobre o debate não são alheios!

E um fenómeno insólito e novo aconteceu: grande parte dos comícios fez-se à volta da mesa. Já não é a rua o palco das grandes concentrações e, muito menos, o contacto porta-a-porta se privilegia! Parece até que só com a barriga cheia é que o povo funciona!

Mas, meu velho, esta forma de fazer política, cuja colagem ao futebol é paradigma maior, acaba por ser baixa e rasca. Porque relega o debate, a discussão de ideias e projectos, o esclarecimento dos eleitores para plano secundário. E põe a Europa cada vez mais longe, cada vez mais ignota!

2. Todavia, caro Zé, valeu a pena votar? Vale a pena votar para a Europa? Claro que sim, mas exigindo mais dos eurodeputados e fiscalizando mais o seu trabalho. É que o trabalho dos eurodeputados e as linhas com que se cose uma união europeia com nacionalismos à mistura, profundas divergências político-económicas e culturais e hegemonia de umas potências sobre outras são deveras ignorados e esquecidos.

Alguém sabe, por exemplo, o trabalho que fez Mário Soares nos quatro anos do seu mandato de deputado europeu? Ao eurodeputado, apenas, se associa um chorudo vencimento no final de cada mês!

Depois, os deputados, em Bruxelas ou Estrasburgo, integrados nas grandes famílias políticas europeias, frequentemente se esquecem do país a que pertencem, do povo que os elegeu e das suas reais necessidades. E, mais grave ainda, são sempre os países mais poderosos a ditar as regras e a marcar o ritmo da eurodependência!

Também o interesse europeu, global, se sobrepõe ao interesse nacional, particular. As leis são universais e quase nunca respeitam as particularidades, assimetrias e idiossincrasias regionais e locais (casos da nossa agricultura, pescas, indústria têxtil).

E assim, cada vez menos temos uma Europa dos cidadãos para termos uma Europa da globalização e dos cifrões!…

Por isso, meu velho, me parece que uma Europa a duas velocidades cada vez ganha mais terreno! E o verdadeiro espírito europeu, não passa ainda de um mito, uma miragem!

E, se calhar, nunca chegará a ser tão real e profundo como o que presidiu ao nascimento da comunidade e lhe deu o corpo e alma!

Venham daí esses ossos e até de hoje a oito!




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