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Portugal, allez! – o Euro 2004 que ganhámos sem saber de nada

O meu orgulho seria redobrado se o líder político do meu país recusasse gentilmente o honroso convite, em nome da consolidação de um projecto reformista absolutamente essencial ao futuro da nação

N/D
29 Jun 2004

A passada quinta-feira foi um dia de glória para o nosso país. Os portugueses por esse mundo fora gritavam e dançavam, dando um novo sentido ao hino “A Portuguesa”, marcha bélica adaptada por Alfredo Keil de “A Marselhesa”, para uma letra declaradamente anti-britânica da autoria de Henrique Lopes de Mendonça.
Este facto seguiu-se a uma alegre reconciliação com a bandeira verde-rubra, que, desde os primórdios da República, vivia aprisionada às inclinações cromáticas de um povo que sempre preferiu a suavidade do azul e branco – as cores da liberdade e da nacionalidade. O poeta Guerra Junqueiro dizia que o «fundo da alma portuguesa, visto com os olhos, é azul e branco».

A bandeira de Portugal, afirmação de uma nação que se queria feita de vermelho, cor da conquista e do risco, a cor viril por excelência, e de verde, a cor da esperança que segundo Augusto Comte «mais convém aos homens do porvir», nunca como nestes dias foi sentida pelo povo. Como uma força que ninguém pode parar…

Os incautos portugueses desconheciam, nesse dia memorável em que comemoraram a passagem às meias finais do Euro 2004, que a única competição europeia da qual eram, já, vitoriosos, era o campeonato para encontrar o Presidente da Comissão, campeonato que não justificara, até então, um único parapeito engalanado. Até isso nós ganhámos. Somos os maiores! Portugal, allez!

Acontece que ninguém nos avisou de que Portugal também entrava neste campeonato, e muito menos de que o nosso Scolari era José Manuel Durão Barroso. O convite endereçado ao ainda primeiro-ministro de Portugal por Bertie Ahern deve encher-nos de alegria e orgulho, uma vez que constitui, efectivamente, uma honra para o nosso país. Ainda que seja um presente envenenado, acreditamos que o nosso José Manuel, primeiro entre os “Tugas”, tem o antídoto. Tudo isso está muito certo.

Com a devida licença, permito-me, no entanto, afirmar que o meu orgulho seria redobrado se o líder político do meu país recusasse gentilmente o honroso convite, em nome da consolidação de um projecto reformista absolutamente essencial ao futuro da nação. Não parece ter sido essa a escolha de Durão, facto que, aliás, não deixa de ser humanamente compreensível. Só me resta desejar-lhe boa sorte e que nos dê ainda mais motivos de orgulho.

Entretanto, o défice comunicacional, quer do ainda primeiro-ministro, quer do Presidente da República, o superavit de histeria pseudo-informativa da comunicação social e a autêntica guerra da sucessão que parece abrir-se nas fileiras do maior partido português, deixam a sensação, tão agradável a alguma esquerda, de que o poder caiu na rua.

É sintomática a tendência que alguns sectores mais radicais da esquerda têm para preferir a rua às urnas como elemento fundador do Estado de Direito Democrático, embora o interesse real que esse factor tenha para esta questão concreta seja diminuto.

Essencial, neste sentido, é fazer um desafio: quem entende que a Constituição da República devia prever a eleição directa de um primeiro-ministro ao invés de determinar, como determina, que «o primeiro-ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais» (art. 187º, n.º 1 da CRP), que tenha coragem e proponha a revisão da Constituição, ou então que não invente.

O que se pede aos demais intervenientes é, em suma, prudência. Jorge Sampaio deve ter para com o PSD a mesma atitude que quis ter para com o PS após a demissão do Eng.º Guterres, fazendo o que Ramalho Eanes fez a Pinto Balsemão, a não ser que, ouvidos os diversos partidos e o Conselho de Estado, tenha razões fundadas para acreditar que será menor a instabilidade e o prejuízo do país se tiver que passar por novas eleições, o que não é provável.

Qualquer decisão presidencial que não contenha esta ponderação de factores será, no mínimo, irresponsável. Por seu turno, o partido mais votado nas últimas legislativas deve assegurar-se de que apresenta ao Presidente uma solução de governo com o máximo de legitimidade interna e, simultaneamente, o máximo de credibilidade externa.

Ao partido mais pequeno da coligação resta-lhe o papel acessório, mas determinante, de se afirmar como uma garantia extra de estabilidade e governabilidade para o país.

Quanto ao futuro, apenas três palavras: Ohh, Portugal, allez!!!




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