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A necessidade de estar informado…

Gostamos de estar informados. O que nos ocupa profissionalmente monopoliza tanto a nossa atenção, que a hora do noticiário passa sem nos darmos conta

N/D
29 Jun 2004

Quando se escrevem artigos aos fins de semana, completamente absorvidos pelo muito trabalho que temos entre mãos, mal se consegue tempo para olhar a realidade que nos circunda.
No entanto, ela é tão rica em factos e em mudanças bruscas de interesses actuais, que ficamos muitas vezes sem saber se o que nos informam é mesmo assim, ou é preciso esperar por ulteriores esclarecimentos.

A pressa de informar pode começar por nos apresentar por feito o que não passa de uma mera hipótese. Surpreendemo-nos com a rapidez de uma resolução de um personagem público, mas depois verificámos que o que nos dizem no noticiário das nove pode ser modificado no das dez. A resolução não era resolução, nada estava resolvido, menos na mente apressada do jornalista de serviço, que atirou para o ar o que devia ser mais ponderado.

Dir-se-ia que para alguns homens dos média o que lhes interessa não é exactamente a realidade, mas os problemas que podem seguir-se a uma notícia de um facto que não é facto, porque não passa dum eco que transpirou de algum sítio, dum ouviu dizer-se, ou tão só de uma sugestão soprada por alguém para agitar a opinião pública.

Metemo-nos outra vez no trabalho, que não falta e exige. Com a telefonia meia aberta, no sentido de que a não ouvimos como primeira fonte de atenção, mas como pano sonoro de fundo, aguardamos talvez por um próximo noticiário. Gostamos de estar informados.

O que nos ocupa profissionalmente monopoliza tanto a nossa atenção, que a hora do noticiário passa sem nos darmos conta. E lamentamos, entrementes, que nos tenha escapado esse instante, quando nos apercebemos que não lhe demos atenção.

Voltamos a esperar pela próxima hora. E, desta vez, talvez pelo cansaço da tarefa que nos ocupa, sentimos alegria por ouvir a música característica, que nos anuncia notícias frescas sobre o que tínhamos ouvido há já duas horas.

O nosso ouvido decreta ao resto de tudo o que somos a inevitável paragem do trabalho para ouvir, como deve ser, o que tanto nos interessa. Suspendemos tudo, excepto uma certa avidez da nossa atenção, que se concentra, por fim, no noticiário.

E escutamos, compenetrados, o que nos têm para dizer naquela hora. Não há novidades, tudo continua na mesma, ou seja, nenhum desenvolvimento notório em relação ao que já sabíamos. E porque o tema que nos prendeu foi contundente ao tomarmos conhecimento, até já nem déramos relevo a mais uma mortandade que, quais cogumelos endémicos e espontâneos, borbulham no Iraque ou no Médio Oriente, que são os pontos de mira preferenciais dos média na actualidade.

Além de, claro está, neste tempo do Euro, repetirem uma vez mais que nesse dia à tarde ou amanhã se realizam jogos fantásticos de apuramento para a fase seguinte.

Voltamos à labuta obrigatória, com pena pela repetição do que já ouvimos e pela falta de novidades originais e sentimo-nos ainda mais presos ao desejo da rápida conclusão que era suposta realizar-se no referido personagem público, de acordo com as primeiras informações que nos interpelaram. Por isso, é absolutamente necessário estar atento ao próximo noticiário.

O programa de rádio continua com música, entrevistas que não ouvimos e a inevitável publicidade, se não é uma emissora pública. De tudo isso há qualquer coisa que paira no nosso subconsciente, que entra sem entrar e nos distrai sem distrair…

De vez em quando, olhamos o relógio, porque o tempo, em épocas de certa ansiedade, ou demora a sua trajectória, ou estuga o passo de modo incrível, consoante as circunstâncias que vivemos. De tal jeito que, às vezes, nos parece rápido, outras preguiçoso, em relação àquilo que esperamos.

Chega a hora das notícias e nós conseguimos de novo dar-lhes prioridade. Será que as dúvidas se esclarecem de uma vez por todas? A música crónica de abertura aguça-nos a atenção e predispõe-nos a sermos ouvintes atentíssimos… Sofremos um grande desapontamento, pois, afinal, a emissora que oiço está em condições de informar, segundo fontes seguras, que nunca esteve em causa tomar tal resolução, pois jamais se havia pensado nela, nem sequer a conjuntura política e social o permitiriam.

A este respeito, entrevistam-se políticos da oposição, homens da rua, comentadores e peritos, que concordam que a resolução deveria esperar por outra ocasião, já que as circunstâncias actuais a tornam indesejável e inoportuna.

Talvez nos enfureçamos e, num gesto, de escape e de raiva, fechamos a telefonia.

Agora, sim, poderemos trabalhar em paz e sossego. Metemo-nos a fundo no nosso mundo e notamos um rendimento muito superior ao de há pouco. Meia hora mais tarde, todavia, germina qualquer coisa dentro de nós que nos segreda, incomoda e divide a concentração: «Não seria melhor ouvir o próximo noticiário? Pelo sim, pelo não… Se calhar…»




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