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E tudo o tempo levou

A informação de hoje é como a comida enlatada: abre-se e consome-se rapidamente

N/D
28 Jun 2004

Não é nada difícil os meus familiares presentearem-me pelas ocasiões propícias: livros. Os meus gostos sobre autores e obras são-me perguntados, uma vez que a surpresa da oferta se desvaneceu há muito como norma. Livros são a minha paixão de velho, vinda de velhos tempos; por isso, numa dessas datas marcantes de minha vida, o familiar encarregado pelo grupo de me presentear, teve alguma dificuldade em encontrar o objecto do meu desejo.

Foi assim que me pus a relembrar os nomes e os locais das livrarias de Braga que desapareceram por razões várias, certamente que não por fartura de clientela. Só na Rua do Souto havia O Globo, a Íris, a Pax, a Gualdino e a Augusto Costa, agora em obras; não sabemos se para voltar a ser livraria, oxalá que sim, que volte ao seu ramo de comércio.

Na Rua dos Chãos havia a Livraria Palha; quase junto ao Turismo existia a Livraria Académica e, na Rua dos Capelistas, a Livraria Victor, agora a laborar em outra rua da cidade. Editoras tínhamos a Livraria Cruz e a Pax.

Hoje não temos nenhuma editora, em Braga. Desconheço se existe alguma mas se existe, eu desconheço e aqui vão as minhas desculpas pela omissão. Tudo isto desapareceu em pouco mais de quarenta anos. E Braga tinha em 1960 42.636 habitantes, segundo fonte e informação da Enciclopédia Luso-Brasileira. Hoje tem o triplo? O quádruplo? E tudo o pronto levou, pronto a vestir, pronto a calçar e pronto a comer.

É a terceira cidade do País e a mais jovem. Era com aquela pouca gente que todas essas livrarias se mantinham abertas e se mantiveram a laborar durante décadas a fio. E ainda não tínhamos os estudantes das Universidade do Minho, nem da Católica, nem dos Institutos ou Escolas Superiores.

Os alunos eram os dos liceus e escolas técnicas existentes à época. Então que se passou? As pessoas deixaram de ler e, gradualmente, ganharam aversão à leitura. É mais fácil receber informação televisiva do que ir buscá-la às páginas dos livros. A posição cómoda de receptor passivo foi-se acentuando e perdeu-se o gosto pelo deleite que é ler no sossego de si mesmo, na aventura da imaginação dos lugares, das cores e dos sons que a descrição do autor nos transmite.

A informação de hoje é como a comida enlatada: abre-se e consome-se rapidamente. Também assim como veio, assim vai na voragem duma pressa que nada nem ninguém sabe onde vai dar.

Os livros vendem-se nos supermercados. Há-os lá aos milhares. Mas falta o conselho amigo do livreiro, o compromisso da encomenda do exemplar que 1há-de chegar, a troca de opiniões sobre as críticas literárias e até a venda, em segredo, de “Quando os Lobos Uivam”, de Aquilino Ribeiro: «Venha cá, tenho-o aqui, cuidado com a PIDE».

Era nas livrarias que se faziam espontâneas tertúlias entre os habituais compradores de livros. Não eram as livrarias meros lugares de venda ao público, eram convívio, seminário e espaço de debates sobre o que de mais moderno e de mais proibido existia na literatura nacional e estrangeira.

Que o pudessem testemunhar “O Moreira da Pax”, por quem nutro uma memória grata, ou pelos “Vilaças, da Cruz” cujo distanciamento de idades entre nós, apenas me deixaram a memória de sua existência. E tudo o culto perdeu e tudo o comércio do pronto ganhou!




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