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Chama ardente de nacionalidade

Deus queira que não caiamos na depressão se os resultados do futebol não forem tão optimistas

N/D
28 Jun 2004

A representação iconográfica do Europeu de Futebol de 2004, que tem estado a decorrer em Portugal, apresenta-nos um coração envolvendo uma bola – apelidada de «roteiro» – em teor flamejante e aureolado por sete estrelas.

À volta deste símbolo se desenvolveu uma teoria de nacionalidade – nalguns casos com sabor a nacionalismo – muito mais exaltada do que em qualquer outro momento da nossa história colectiva recente.

Este torrão à beira-mar plantado conseguiu cumprir os objectivos traçados disso a que apelidaram de «desígnio nacional», unindo esforços e capacidades, iniciativas e participações, projectos e diversidades… sem olhar (ao menos nesta fase de execução e bom sucesso desportivo) a cores clubísticas, disfarces partidários ou mesmo dislates de oportunismo.

Foi bom de ver a bandeira nacional, flamejando em janelas, carros ou de mão em mão.

Foi interessante de escutar a entoação do hino nacional a plenos pulmões em estádios e pelas ruas. Foi cativante de sentir que a uma só voz se foi revelando, afinal, aquilo que nos unia, relegando mesmo a figura do Presidente da República – por muito significativo que seja e é, de direito – para uma expressão secundária (ou pelo menos não tão relevante!) diante daqueles dois outros símbolos da Nação Portuguesa.

Numa época de europeísmos mais ou menos discordantes vemos, em Portugal, por directa influência do futebol, crescer uma onda de revitalização dos sinais da nossa portugalidade, que em tempos mais ou menos recentes andou pelas ruas da amargura, tanto mental como social ou politicamente.

De facto, o que é isso de «ser português» na Europa e no mundo? Até onde vai a nossa capacidade de afirmação entre povos, nações e culturas mais vistosas do que a nossa? Como poderemos ser reconhecidos para além – em certos círculos europeus – dos «marroquinos do Norte»?

Quem já esteve em encontros europeus – seja qual for o sector, a actividade ou a expressão linguística – ter-se-á apercebido que nos confundem “naturalmente” com uma província espanhola. E, só quando ouvem uma referência a Fátima, é que nos distinguem pelo nosso específico de povo crente ou pelo menos bafejado pela visita de Nossa Senhora no primeiro quartel do século XX!

Por isso esta chama ardente de nacionalidade, trazida pelo Campeonato Europeu de Futebol, veio em boa hora, pelo menos fez recuperar um pouco a identidade, o brio de pertença, sacudindo certos fantasmas agoirentos de “velhos do Restelo” ciclicamente desenterrados no nosso colectivo!

Deus queira que não caiamos na depressão se os resultados do futebol não forem tão optimistas, como a ilusão pretende que sejam. A nossa história merece novos heróis e santos… capazes de perdurarem na memória de todos, mesmo que à custa das façanhas do futebol!




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