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Sobre uma camioneta da Rodoviária d’Entre Douro e Minho

Quando, no penúltimo domingo, chegou à central de camionagem da Póvoa de Varzim, o grupo de estrangeiros que viajava na camioneta da Rodoviária d’Entre Douro e Minho que partira de Braga às 18h30 resolveu inesperadamente bater palmas. A prática de bater palmas à chegada é invulgar, excepto numa ou noutra viagem aérea.

N/D
27 Jun 2004

Neste caso, mais do que agradecer uma aterragem bem concluída, a ovação serve para libertar o stress que o voo fez acumular. As palmas que o grupo de estrangeiros bateu não tinham qualquer relação com stress ou com qualquer outra desordem emocional. Nem uma pessoa electrizada pela ansiedade teria razões de queixa de tão tranquila viagem dominical.
As palmas também não antecipavam a vitória da equipa portuguesa. Quando os estrangeiros
chegaram à Póvoa de Varzim, o Portugal-Espanha ainda não tinha começado e o resultado não era, de modo algum, previsível. Claro que há sempre bruxos que dizem que Portugal vai ganhar, como na semana que findou afirmava na primeira página um desses jornais do incrível ou do crime e não é preciso ser bruxo para prever que os mesmos bruxos tornarão a prever que Portugal sairá vitorioso do jogo da próxima quarta-feira.

Ponderadas todas as hipóteses, e podendo-se excluir a possibilidade de os estrangeiros não terem um juízo escorreito, o aplauso só podia ser um muito obrigado endereçado ao motorista. Bem vistas as coisas, há motoristas que merecem todas as palmas. As dos estrangeiros certamente não se justificavam por qualquer razão particular, mas se fossem para agradecer a quem estava a trabalhar de um modo competente num local particularmente adverso eram bem justas. E, no caso presente, o local adverso não era a estrada que liga Braga à Póvoa de Varzim, muito calma nesse fim de tarde sossegado, mas a própria camioneta que o aplaudido conduzia.

Estava absolutamente nojenta essa camioneta. Os assentos tinham aqueles estofos horríveis, que são um paraíso para ácaros e companhia, mas que são impróprios para humanos, rasgados a torto e a direito. O pó acumulava-se por todo o lado. Era tanto que os passageiros bem podiam ter sido aconselhados a viajar com escovas para se limparem no final da viagem. É escusado pormenorizar. Tudo somado: uma imundície. A imundície, que não tinha sida causada por viajantes sem práticas higiénicas, resultava simplesmente da inexistência de serviços mínimos de limpeza.

O facto de a porta não abrir, sendo necessário que o motorista saísse do seu lugar para lhe dar um forte puxão de modo a permitir que os passageiros recolhidos durante o percurso pudessem entrar, ainda se podia tolerar. E mesmo uma avaria da camioneta no meio do caminho, que desta vez não sucedeu, se podia aceitar no quadro de uma compreensão bastante generosa. Para os turistas, o mau funcionamento de uma velha camioneta pode ser encarado como uma marca de um país pitoresco. Há, aliás, gente que gosta de conhecer países avariados e imprevisíveis. Contudo, mesmo as avarias e as imprevisibilidades casam-se mal com a porcaria.

É simples perceber que não faltariam clientes a uma empresa que se propusesse realizar viagens em camionetas antigas, daquelas que, por exemplo, tinham umas escadas nas traseiras para o cobrador subir até ao tejadilho para aí colocar as malas dos viajantes. No entanto, é pouco provável que uma empresa que quisesse que os clientes viajassem em ambulantes aterros sanitários pudesse, como agora se diz, ter uma boa cota de mercado.

Em Portugal, os transportes públicos em geral não gozam de grande prestígio. Qualquer europeu mais ou menos observador que chegue ao nosso país pode, de resto, espantar-se com a extraordinária quantidade de viaturas caras que circulam nas nossas apertadas estradas. Em nenhuma capital europeia, como muito bem sabe quem viaja, se vêem tantos veículos de alta cilindrada como nas nossas cidades de província. Para o reduzido prestígio dos transportes públicos, contribuem muitas empresas, que apenas conseguem demonstrar que as camionetas não são recomendáveis para quem pode viajar de outro modo. O facto de serem sobretudo pessoas com menos recursos que andam de camioneta faz também com que a qualidade dos transportes públicos rodoviários não seja uma questão com o mínimo relevo na agenda dos poderes públicos.

O dinheiro que pagou um desses submarinos que o Ministro da Defesa comprou para nada permitiria custear a renovação geral da frota das empresas de camionagem do país. Governar é, como se sabe, ordenar prioridades e, como o dinheiro não chega para tudo, seria bem melhor que o Estado optasse por pagar camionetas úteis em vez de gastar dinheiro em submarinos inúteis. O país ficaria melhor servido com submarinos velhos e camionetas novas do que submarinos novos e camionetas velhas. Sem um apoio significativo e inteligente do Estado, é possível que as camionetas antigas circulem durante mais tempo do que o desejável. Contudo, nada justifica que essas camionetas antigas sejam nojentas. A antiguidade, evidentemente, não é incompatível com a limpeza.




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