Fotografia:
Rebanhos, palácios e rios como o Sabor

No fundo (e erradíssimamente) o governo é o Grande Capital internacional, cujos interesses raras vezes coincidem com os da Política que interessa a cada povo.

N/D
26 Jun 2004

1- Arlindo Cunha qual Severiano – Não contente com a recente destruição de boa parte do curso português do Guadiana, perpetrada através da construção da barragem do Alqueva, promete o actual governo iniciar já uma outra no baixo Sabor.
A localização duma barragem no curso deste cénico afluente do Douro irá, porém, violar normas internacionais de protecção de flora, fauna e paisagem que são património mundial. E disto, Portugal não sairá provavelmente impune. Para mais, a nova barragem irá produzir apenas 0,8% da electricidade consumida em Portugal. E está orçada num mínimo de 50 milhões de contos (250,30 m. de euros) que sairão do bolso dos contribuintes. E já sabemos como estes números costumam derrapar, às vezes para o dobro ou triplo (ou bem mais, como foi o caso do Centro Cultural de Belém).

A entrada para o Ministério do Ambiente do actual governo, há poucas semanas atrás, do santacombadense dr. Arlindo Cunha, em substituição do quase desconhecido (e desconhecedor) prof. Amílcar Theias fazia já adivinhar o pior, a respeito da destruição do Sabor. E isto porque, nos ministérios da Agricultura do cavaquismo, o dr. Cunha fôra um dos homens mais insensíveis ao problema dos incêndios florestais e da consequente eucaliptização do nosso outrora belo país. Esta sua chamada ao actual governo lembra até a convocatória, há 3 anos, do fundamentalista Severiano Teixeira ao governo de Guterres. Aparentemente também para a realização duma missão específica, tal qual fôra, no caso de Severiano, ao tentar impor a exagerada taxa de 0,2 quanto à alcoolémica na estrada. Erro grave, que se tornou uma causa próxima da queda da administração socialista.

2 – O boi e o palácio – Qual o valor do Sabor e dos outros rios do Nordeste português? Reconhecidamente a grande maioria dos portugueses nunca lá foi e ainda por cima pouco sabe de Geografia. Mas é assim: os grandes rios dessa vasta região (Sabor e Tua, a norte; Águeda, Aguiar e Côa, a sul, entre outros) todos são afluen-tes do Douro. E todos têm as suas bacias hidrográficas, num total de centenas de kms, com frequência barrancos e altos desfiladeiros cobertos de mato e belíssimos penedos, intermeados por algumas áreas de vinha ou olival. Um mosaico que é o “habitat” perfeito de animais que em Portugal já quase não se encontram em qualquer outra região. Desde os falcões, mochos e águias até aos javalis, ginetas e certas espécies raras de morcegos e toupeiras; desde certos peixes de rio até várias belíssimas espécies de rãs e batráquios.

Mas o interesse desta zona advém também de ela ser, na Europa inteira, o limite noroeste da vegetação de tipo mediterrânico; com imensos sobreiros, zimbros, azinheiras, oliveiras e carrascos. A mesma paisagem que, lá tão longe, conheceram Ulisses, Salomão ou Nosso Senhor Jesus Cristo.
Tendo nós herdado estas jóias paisagísticas no nosso território e não as prezando ou sabendo apre-ciar, estamos a degradar-nos como povo. Só nos interessa, parece, o dinheiro, os cifrões. Tal qual como um rebanho de distraídas ovelhinhas a pastar nos jardins do castelo de Windsor ou do palácio de Fontainebleau. Elas não reparam no momento, o que lhes interessa é que a erva esteja fresquinha…

3 – Turismo entre fios de alta tensão, numa região pobre mas saturada da barragem – Assim é. Enganam-se pois alguns autarcas locais que pensam que uma barragem no Sabor irá atrair turistas. Claro que não, pois a barragem vai semear os céus com cabos de alta tensão; vai produzir um lago de águas paradas e lodosas com quase 30 kms de comprido. E vai produzir uma paisagem artificial e vulgar onde sempre existiu um grandioso cenário natural. Para fazer turismo ambiental certamente haverá, no futuro, milhares de pessoas que se deslocarão 200 ou 300 kms para visitar a região.

Porém, para andar de barco a motor ou esquiar, não concebo que vá visitar o Sabor quem já antes esquiava ou andava de barco em Esposende, na ria de Aveiro ou na zona de Crestuma-Lever…
A verdade é que a barragem só vai dar dinheiro aos empreiteiros que a construírem (e obviamente à EDP). Trás-os-Montes já tem, no rio Douro que a percorre, mais de meia-dúzia de barragens e não consta que por isso se tenha tornado rica. Com a destruição do Baixo Sabor vai é ficar bem mais pobre.

4 – A solução está no poupar e na aposta na energia solar e na das ondas do mar – Não me recordo, desde há muitos anos, de qualquer governo do “rotativismo abrilista” (seja do PSD ou do PS) ter apelado à poupança, à contenção dos gasto supérfluos. A razão está em que ambos os partidos são (com pequenas diferenças) adeptos duma Economia de crescimento contínuo, não sustentado, em roda livre, pouco ou nada controlada pelos governos. Assim, no fundo (e erradíssimamente) o governo é o Grande Capital internacional, cujos interesses raras vezes coincidem com os da Política que interessa a cada povo.

Bastava pois que os milhões de consumidores desligassem a televisão, o vídeo, a luz, o ar condicionado ou o aquecedor quando saem de uma sala por mais de 5 minutos. Que os municípios gastassem metade do que gastam em iluminação pública. Que fosse proibida a iluminação nas lojas ao nível de certos exageros que se vêem por aí… E não se precisaria de construir barragens no Sabor ou Minho ou no alto Côa (que são zonas de valor quase igual ao Sabor).

E deve apostar-se na tecnologia existente (e futura) relativa ao aproveitamento da energia solar (e fotovoltaica). E sobretudo investigar a sério o modo de aproveitar a energia das ondas e das correntes marítimas. E concentrar os parque eólicos em sítios onde a paisagem já tenha sido estragada, seja pela construção de prédios, seja por auto-estradas.

Porém, enquanto os governos não optarem por estas alternativas, irão sempre perguntar os mais cépticos: “Foi para isto que descolonizámos, que saímos de África e do Brasil? Para agora termos de encher o nosso pequeno país de eucaliptos e de barragens? É isto o Progresso?” Para alguns, parece que é…




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