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A minha leitura

É chegada a hora de refrescar a equipa governamental

N/D
25 Jun 2004

São várias as leituras feitas à volta das eleições para o Parlamento Europeu. Facciosas muitas, independentes e rigorosas poucas. Quanto à abstenção, como se esperava, atingiu níveis preocupantes. Não são poucos os que ficaram em casa por motivos que nada têm a ver com convicção europeísta.
Também não é verdade que os efeitos destas eleições só podem ser ligados à União dos 25, negando a legitimidade de tirar outras possíveis ilações. Sobejam exemplos que vêm de trás. Para não recuarmos muito, basta ver o terramoto sofrido nas últimas eleições autárquicas que, apesar de não serem legislativas, penalizaram de tal modo a acção do executivo que levaram Guterres a abandonar o governo.

Não faltou quem visse nesse abandono verticalidade política. Mas também houve quem o censurasse por não ter tido coragem para aguentar e seguir até ao fim. Só não vi, na comunicação social, quem fizesse outra leitura de tal comportamento.

É que seguir em frente tinha o efeito desastroso de o PS perder as eleições legislativas de 2006, com tal desmoronamento que o poder passaria ao lado do PS, sabe-se lá por quantos anos. Foi mais fácil atirar com a criança para o colo do maior partido da oposição, e esperar pelo regresso, só possível quando voltar a haver fartura de São Miguel.

Há também quem veja na abstenção um direito próprio de afirmação que pode ser entendido até como uma rejeição do próprio sistema democrático por estar farto dele, convencido de que os políticos exercem o poder apenas para se governarem, esquecendo o interesse público que confundem com o interesse pessoal e partidário.

Daí a falta de confiança. O grande filósofo Espinosa ia mais longe ao referir que a forma de governo pode ser democrática, aristocrática ou monárquica. Contudo, a sua preferência parece inclinar-se para a democracia, por lhe parecer que é o sistema que melhor protege cidadãos, pois nele «cada um se submete ao controle da autoridade sobre seus actos, mas não sobre seus julgamentos e raciocínios, isto é, vendo que todos não podem pensar igual, a voz da maioria tem força de lei».

Mas reconhece e lamenta que a democracia permita que o poder venha a ser detido e exercido, tantas vezes, por medíocres, favorecendo com os melhores cargos os bajuladores. Por isso cedo ou mais tarde, os homens mais competentes, ainda que em minoria, levantam a sua voz contra o sistema e procuram substitui-lo.

«O povo, enfim, prefere a tirania ao caos». Claro que Espinosa morreu 112 anos antes da Revolução Francesa, não chegando a sentir o pulsar das verdadeiras democracias que se seguiram ao grito da liberdade e ao lento e agonizante desaparecimento do sistema autocrático, que mesmo Espinosa considerava «opressivo e militarista».

Daí sermos levados a concluir que devem ter sido alguns os que não compareceram à boca das urnas para depositar o boletim de voto, nas últimas eleições, por cons-cientemente contestarem o sistema democrático. Mas não vamos tão longe como Espinosa ao concluir que preferem os governos de tirania ao caos. Já Churchill reconhecia que a democracia, apesar dos seus defeitos, ainda era o sistema que melhor protegia o povo.

Não se justifica o empolamento que se fez da vitória da esquerda. O maior partido da oposição beneficiou muito do voto de emoção (o efeito Sousa Franco) e dos militantes que lhe negaram o voto nas autárquicas e agora votaram maciçamente. O BE conquistou um deputado. O PC mantém o resultado anterior.

O PSD, como a maioria dos partidos que, na Europa, estão no governo, foi largamente penalizado pelos seus próprios militantes e simpatizantes, que quiseram dizer basta. Contudo, não falta quem, dentro do partido, não tenha visto com bons olhos a coligação pré-eleitoral “Força Portugal” e, por isso, tenha empurrado para cima a percentagem da abstenção, como que a prevenir que isso não venha a repetir-se nas próximas legislativas.

De qualquer modo, é chegada a hora de refrescar a equipa governamental. Com o tempo os governantes acomodam-se e baixam de rendimento. Mais ainda: torna-se, infelizmente, necessário repetir, e já, a forma de governar ao sabor das sondagens, posta na prática pelos políticos ávidos do poder, a que estamos habituados, e do gosto da maioria dos eleitores que o que querem é barriga cheia, borrifando-se para a subida da inflação e do desemprego. Vão-se os anéis, mas ficam os dedos, diz o povo.

E depois? Depois logo se vê. De contrário, Senhor Dr. Durão Barroso, temos governo de outra cor em 2006. Colabore com a bandalheira. O povo o que quer é fartura.

Entretanto, muitos morrem e já não sentem os efeitos da nova crise quando a direita voltar ao poder para abarrotar o celeiro. Seja–me permitida a ironia.

Mudando de assunto, Mário Soares está cada vez mais enigmático. Aquela “boca” que mandou a Cavaco Silva, afirmando «que a esquerda continua a ser maioritária em Portugal» é de rir às gargalhadas. Se não vejamos: O PSD teve três maiorias absolutas (12 anos), uma com a AD e duas com Cavaco Silva, precedida esta de um governo minoritário de 1983 a 1985 (dois anos); esteve coligado com o PS, presidido por Mário Soares dois anos.

Está no governo presentemente com Durão Barroso, coligado com o PP, e o mandato de quatro anos é para cumprir até ao fim. Afinal, o PSD, em 2006, completa 20 anos de governo, num período de 30 anos! O PS, façam favor de conferir as contas, ficou-se pelos 11 anos. Afinal, como é que a esquerda continua a ser maioritária em Portugal?

Também não esquecemos nós que a esquerda elegeu dois Presidentes da República.

Isso é verdade. Mas olhe que o primeiro presidente do PS foi eleito com sais de frutos e votos amargos da esquerda, dentro do partido e fora do partido. E jamais se vai esquecer a fantochada ensaiada na praça pública contra o candidato Freitas do Amaral, acusando-o falsamente de dívidas ao “Primeiro de Janeiro”, quando ele já não se podia defender.




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