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João Baptista, santo, profeta e pregador

Há cerca de dois anos, evoquei nesta coluna o mais popular dos Santos portugueses, por quem, como então confessei, nutro uma especial devoção. Hoje, porém, dia de festa de São João, pretendo associar-me à felicidade e alegria dos bracarenses, lembrando aqui, na singeleza das tradições cristãs do povo desta bimilenar cidade, a actualidade do testemunho deste profeta e das múltiplas e edificantes lições que, como pregador, deixou aos homens do seu tempo e aos vindouros.

N/D
24 Jun 2004

Quem quer que se debruce sobre a vida de João Batista e a relevância do papel que desempenhou no seio da cristandade, logo dá conta de estar perante um predestinado por Deus para ser o “precursor” de Cristo, o anunciador da chegada do Messias.
E por isso se percebe o carácter profético que envolve o seu nascimento e o sinal divino da sua Santidade ainda no ventre de sua mãe, Isabel, prima de Nossa Senhora. Esta mulher, estéril e já idosa, viu satisfeito o seu enorme desejo de ser mãe, concebendo e dando à luz um filho de seu marido Zacarias, sumo-sacerdote de Jerusalém, a quem, numa visão, o Anjo Gabriel anunciou o nascimento desse filho que deveria chamar-se João e que seria grande aos olhos do Senhor.

Mas, para além desta santidade quase inata com que foi marcado pelo desígnio divino, emerge a sua faceta de grande pregador que o Padre António Vieira apontou como modelo ideal em muitos dos seus sermões.

Num destes, disse o insigne escritor português: «Porque convencia o Baptista tantos pecadores? Porque assim como as palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos». Em palavras tão simples, mas tão expressivas, Vieira desvendou o segredo do êxito da pregação de São João: a vida do pregador estava em consonância com a doutrina que proclamava.

E a sua vivência terrena foi, efectivamente, marcada pela modéstia, pela humildade e pelo despojamento da soberba e das vaidades do mundo.

Retirado durante longo tempo para o deserto, aí se devotou à oração, levando uma vida austera e de penitência. Assim se forjou essa figura de asceta, de longas barbas e cabelos hirsutos, trajando uma rudimentar túnica de pele de carneiro, que ele próprio confeccionava, cingida por um cinto de couro e alimentando-se, frugalmente, com o mel e os gafanhotos que no deserto encontrava, que imprimiu à sua voz e ao seu carácter a grandeza de espírito e a força persuasiva necessárias à sua tarefa de preparação do advento do Reino de Deus no meio dos homens.

Exemplo de coragem na luta contra a corrupção e as imoralidades do poder, não hesitou em denunciar publicamente os abusos e injustiças dos cobradores de impostos e dos homens públicos, chegando, inclusive, a admoestar o rei Herodes, como relata Marcos (6, 18): «não te é lícito coabitar com a mulher do teu irmão». Como se sabe, esta advertência custou-lhe a cabeça que, com requintes sinistros, o rei mandou servir a Salomé, numa bandeja. Mas garantiu-lhe a imortalidade e a glória divina e a estima e veneração dos crentes de todo o mundo.

É este exemplo de Homem, de quem o próprio Cristo fez o maior elogio de quantos da sua boca saíram – «entre os filhos de mulher, não há maior que João» – e as lições de vida que nos legou que hoje, jubilosamente, Braga comemora.

Mesmo em horas de tantas dificuldades e angústias, de crise económica e moral de Portugal e do Mundo, é reconfortante saber que o povo não perde a esperança no Salvador que São João anunciou.

É com este espírito que me uno à alegria dos meus concidadãos bracarenses, pedindo ao Santo a protecção para a nossa cidade e para a nossa pátria.

(Conforme é habitual, esta coluna interromper-se-á durante o período estival).




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