Fotografia:
Festa entre povos inseguros

É no universal que nos realizamos como Povo», afirmou recentemente o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio no Dia de Portugal e das Comunidades, em Bragança. Uma constatação que é sinal da globalidade, acolhimento e alegria “marítima” que marcam a nossa alma: identidade nacional! Afinal, sempre fizemos do acolher o outro e de receber em casa, uma festa!

N/D
24 Jun 2004

Chegaram os “estrangeiros”. O Portugal tranquilo “à beira da Europa plantado” é, outra vez, invadido. Não vêm para trabalhar. Vêm para o futebol. Contudo, devido à hodierna conjectura global pós-atentados terroristas, o País lança-se, por um lado, em medidas excepcionais de controlo e de criação de estruturas que garantam eficazmente a segurança dos jogadores e do público e, por outro, que impeçam o engrossar das “quotas” da imigração ilegal e os excessos dos mais violentos da bola.
Na verdade, está-se diante de um medo diferente daquele que o País tem crescentemente manifestado face aos imigrantes sob a forma de xenofobia e um racismo “politicamente correcto”. A palavra “estrangeiro” é sempre mais associada a medo, a perigo, a invasor…

Os tempos mudaram. Não são os da sorridente Expo98, é certo, porém o Euro2004 revela-nos uma Europa “ameaçada” que se tornou espaço inseguro e violento.

Por isso, Portugal, em conformidade com as regras internacionais, toma precauções excepcionais para o bem de todos: as fronteiras foram repostas suspendendo o mítico Acordo Schengen, o terrorismo ameaça em cada esquina de multidão devido ao perpetuar-se da situação do Iraque e Afeganistão, as claques pacíficas e os “hooligans” violentos coabitam dentro e fora dos dez estádios, e foram criados os temíveis “centros temporários de detenção para estrangeiros” candidatos à expulsão e repatriamento…

O “estrangeiro” adquire uma nova conotação e, por conseguinte, estigmatização e a “liberdade de circulação” é vigiada policialmente! Afinal, o “dogma” europeu da liberdade de movimento parece necessitar de imediata reforma.

No entanto, por umas semanas de alguma “alienação nacional”, o País vai esquecer os “apitos dourados”, que ainda continuam a existir e a alimentar a intransparente “indústria” nacional futebolística, como também ocultar outros “pecados sociais” – sem arrependimento à vista! – denunciados pelos bispos. Inesperadamente o negócio e a moda das Bandeiras da República pegaram como nunca; os estádios modernizados – que os imigrantes ajudaram a construir e a terminar dentro dos prazos previstos – ficaram prontos a horas; o delicado destino da Selecção foi entregue a um estrangeiro de um país irmão da CPLP – o Brasil -; os nossos jogadores “emigrantes”, melhor aplaudidos lá fora do que cá, foram convocados e regressaram temporariamente.

Em tudo paira uma “mestiçagem” cultural e cooperação transnacional que tem em cada equipa europeia em campo a “parábola” mais fiel e eloquente da identidade e cidadania europeias. As identidades ultrapassam os limites das fronteiras e até de continentes! Há algo novo no ar de que é preciso tomar consciência: uma outra cidadania, um outro modo de ser nação e povo! O que significa hoje dizer-se português, grego, francês, holandês, lituano, russo?

O Euro, como o encontro de povos que praticam desporto, surge também como ocasião para “desmitificar” nacionalismos, separatismos e laicismos exacerbados, tacanhos, demagógicos e adversários que noutras matérias políticas, como acontece face à Imigração, à Família, à Vida, ao Trabalho e Asilo, parecem persistir entre os europeus.

Mas desta vez longe da alegria dos estádios e dos técnicos de balneário. Esse outro jogo de interesses que divide os Povos continuará a jogar-se nos Parlamentos e nos fóruns da Sociedade Civil. Será, de maneira especial, aí que nós teremos que agitar a bandeira dos direitos humanos, da justiça e da coesão social. Será um eterno campeonato que promete durar enquanto houver jogadores dispostos a jogar para ganhar troféus de dignidade e humanidade.

Assiste-se, nestes dias, a uma excepcional demonstração de patriotismo à volta do futebol. Um sentimento colectivo reforçado pela exaltação “mediática” dos símbolos nacionais – Bandeira e Hino – que lamentavelmente não tem sido visto noutras áreas e momentos aonde ele se poderá tornar decisivo para o presente do País e da Europa no mundo: o Emprego e a Saúde, a Ciência e Tecnologia, a Agricultura e o Ambiente, o Mar e as Pescas, a Migração, as Eleições, só para citar alguns. Pelo contrário,
nota-se indiferença social, descomprometimento político e muito pouco orgulho nacional. Por isso, pergunto-me: é patriotismo ou bairrismo provinciano? Estranho?!

Em geral, orgulhamo-nos de ser portugueses em questões secundárias e lúdicas, em vez de o fazermos com forte “sentido nacional” e intransigente responsabilidade solidária em questões principais e decididamente vitais para o bem comum nacional ou internacional. A única excepção foi a luta por Timor Lorosae, se a memória não me falha, que uniu o País nos últimos 30 anos. Portugal e Timor pareciam uma única Pátria.

«Portugal é a ousadia de um Povo […]. Um futuro para Portugal há-de medir-se pela capacidade de construir pontes entre as culturas, de pôr os homens em diálogo, de contribuir para o progresso da humanidade concebida como uma única família humana» (cfr. Carta Pastoral “Responsabilidade solidária pelo bem comum”, n.º 33). Foi dito recentemente e com razão! Portanto, depois dos estádios, unamo-nos para construir pontes de diálogo e de progresso para todos! Aprendamos a ver nas migrações internacionais uma formidável oportunidade “pontifícia” de unidade entre Povos e invistamos com realismo e utopia na edificação universal de uma “sociedade integrada”!




Notícias relacionadas


Scroll Up