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Chover no molhado (37)

O homem muda o Mundo através do seu espírito. O Mundo muda o homem através também do seu “espírito”, que é o amor. Enriquecemo-nos mutuamente

N/D
23 Jun 2004

Quais são, então, concretamente, os cordões reais e potenciais do novelo, que constituem a integridade ou a totalidade da Pessoa humana?
Ei-los: corpo – alma; sensação – mente; razão – intuição; imaginação – inteligência; emoção – sentimento – pensamento; arte – estética; criatividade; sociais. E, agora, estes, os presentes, que chamem pelos que, devido a certas circunstâncias, estão ausentes. E estes cordões, reais e potenciais, sendo diferentes, formam a unidade da Pessoa.

E esta unidade de diferenças, na Pessoa, recolhe o seu sustento e força do Uno, que é o nosso ser profundo e concreto. E o sustento e a força da unidade que vem do Uno, é a sua própria vida, é a sua dinâmica, é o seu amor, é o seu espírito.

Dentro desta unidade de diferenças, todas têm de estar conectadas, interrelacionadas.

Todas têm de estar organizadas e equilibradas. Tudo tem de estar selado pelo princípio da cooperação. E como o seu sustento e força é a vida, é o dinamismo, é o amor, é o espírito, a unidade entre todos estes dados reais e potenciais da Pessoa tem de obedecer ao princípio do crescimento, do ajustamento, da adequação, da construção e da reconstrução. E toda a unidade das diferenças tem de obedecer ao princípio da ordem.

E onde vai, com o seu caudal desaguar este princípio?

Desagua na própria Pessoa, para que esta se torne mais pessoa, para bem se relacionar com a realidade total, já que embriagada de vida, de dinamismo, de amor e de espírito. E eis agora aqui a chave que abre as portas do Mundo à paz, à amizade, à solidariedade, à concórdia, ao progresso, à cooperação, à felicidade.

E, agora, uma palavra só a respeito do nosso espírito. E porquê? Porque, conectado por grandes vultos do pensamento, com a religião, foi desprezivelmente ignorado, humilhado e lançado no caixote do lixo. Até John Dewey, embora em muitos aspectos integralista, fez a mesma coisa ao realçar apenas o significado social da personalidade e da inteligência. Eis, aqui, grandes vultos do pensamento a lubrificarem o “Eixo do Mal”, através da desintegração desprezível, humilhante, quando ignoram, voluntária e conscientemente, o espírito.

A mim, agora aqui, o que me interessa é ver a imagem do meu espírito, desta minha energia vital, reflectida no espelho da minha auto-consciência, da minha auto-reflexão, quando abraço e me dobro por cima dos meus pensamentos e das minhas emoções.

E vejo-os, conheço-os, compreendo-os, relaciono-os, controlo-os e, depois, dou-lhes um sentido. Eis aqui, à minha frente, a imagem inteligente do meu espírito.

Quando, à passagem da madrugada, oiço o emocionante e saboroso assobiar do melro; quando oiço o gemer triste e cadencia-do da rola; quando oiço o pipilar zombeteiro e trapalhão da franganota passarada; sabe-me isto melhor que, ao levantar-me da cama, o lauto pequeno almoço. Eis, novamente aqui, a imagem toda rescendente do meu espírito.

Quando, pela tardinha, me vejo a baloiçar com o suspiroso e traquino vento, pelo ondulado das searas do centeio, sem saber como desdobrar o encanto que pulula dentro de mim, eis aqui, outra vez, a imagem fagueira do meu espírito.

Quando o poeta latino Vergílio, ao contemplar os vestidos e a elegância da postura dos campos e dos montes que se erguiam à sua frente, se espreguiçava, conscientemente, atirando os braços para a divindade, ao ritmo de um profundo suspiro, veja-se, agora aqui, a imagem transcendente do espírito.

O meu espírito está em mim. O espírito abarca tudo e tudo congrega; penetra tudo; é diferente de tudo; é independente, mas com a sua autonomia no amor inteligente.

Pergunto: Porque foi assim rejeitado e lançado no caixote do lixo? Não compreendo nem aceito. Pois, com ele, também eu fui lançado ao lixo.

Quando Marx diz: «Não interpretes o mundo, muda-o», aceito a mudança mas rejeito a não interpretação. Porquê? Porque negou ao mundo a capacidade de, através do meu pensamento inteligente, emotivo e contemplativo, operar em mim mudanças, enriquecendo-me. Eis outro lubrificante do “Eixo do Mal”. Não compreendo a não interpretação!

Mas compreendo, isso sim, que há duas mudanças recíprocas, cooperantes, entre o Mundo e o homem. O homem muda o Mundo através do seu espírito. O Mundo muda o homem através também do seu “espírito”, que é o amor. Enriquecemo-nos mutuamente.

Porque digo que o Mundo é amor? Porque o Mundo aceita-nos e abre-se-nos.

Abre-se-nos em inteligência e bondade. Que o diga a ciência positiva. E Deus está no Mundo com a sua mente e o seu coração. Que o diga a Teologia.

A Pessoa humana exige, para o seu enriquecimento, uma franca e sincera cooperação entre a ciência positiva e a Teologia natural.




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