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O caleidoscópio futebolístico…

O futebol não é tudo, mas uma parte do nosso povo… Seremos capazes de fazer o mesmo esforço para outras causas, de modo a sairmos do látego ou labirinto dos níveis baixos em que nos situamos?

N/D
22 Jun 2004

Mais que a vitória ou não vitória da selecção portuguesa no Euro2004, apreciei a capacidade de organização nacional para pôr todo um processo em movimento. Estão de parabéns os organizadores, se bem que muitos adeptos balancearam entre “o besta e o bestial”, perdendo os contornos da realidade, numa euforia descabelada até ao paroxismo, que atingiu os profissionais. Temos uma selecção, que, frente a Espanha, se portou como uma equipa, onde o individual foi ultrapassado, para impor o conjunto.
O povo, como os jogadores, mostra que é capaz de se unir em coisas neutras ou discutidas, mas falha, por vezes, em projectos colectivos. Fala em nacionalismo com as suas equipas, mas esfarrapa a bandeira, ou calca-a aos pés, em situações ou causas essenciais.

Posterga a religião, que maldiz, mas inventa-a no futebol, fazendo promessas, que idolatra como uma outra religião, seguindo o “roteiro” de peregrinos, que perderam o sentido ou dimensão das proporções, que o semântico e a semiótica exprimem de forma eloquente.

Por alguns momentos, quisemos a felicidade de sermos os melhores, encobrindo ou afirmando uma identidade que, por vezes, desprezamos, ou inventamos, como lenitivo ou antídoto para outras frustrações… Seja como for, mostramos o excesso do que somos, como exprimimos em xutos e pontapés o que nos falta, diante de outros, que nos admiram na histeria, paranóia, ou nos valores que, emocionados, transmitimos, mesmo inconscientes, pelo que representamos, somos, fomos ou devíamos ser, se fiéis aos pergaminhos e qualidades que temos.

Assim, tenho visto o futebol no estrangeiro. Admiro os estádios… e o esforço de os construir. Com prazer ouvi encómios às nossas capacidades, mesmo turísticas, mas nem sempre temos sabido rentabilizá-las. Nunca vi tanta propaganda e belas paisagens de algumas regiões. Será que o futebol vai ser o detonador para um outro turismo? O nosso acolhimento, simpatia, vai ficar apenas para os dias de festa? A lição que aprendemos, sobretudo das equipas de países mais desenvolvidos, ou até mais pobres – como os de Leste! -, vai servir-nos para o futuro?

Para além de todas as demonstrações ficará o espectáculo de jogadores, lutando por uma camisola, em nome de um país, nem que se tenha de comprar escravos, como neo-colonização de negros, para lutarem sob o signo de uma bandeira estrangeira, como a França… Será isto futebol, ou uma hipoteca cedida a médio prazo, que esconde outros valores subjacentes, que se jogam por trás da cortina, nem que seja ofendendo a dignidade de outros? Mercenários ou eufóricos de um sistema, em que todos ficamos estrábicos, ou sofrendo de daltonismo, pelos valores do que se mostra e na semiótica do que representa?

Por isso nunca fui dos fanáticos de futebol, nem da religião das “catedrais”, nem devoto do “roteiro” de tais peregrinos… mesmo com melodias e cânticos frenéticos, de hunos, ou dos que tudo hipotecam para ver o “desporto-rei”, nem que seja humilhando os mais fracos ou comprometendo a família e a solidariedade internacional.

Admiro a festa, ainda que toldada com algumas nuvens… Mesmo assim a polícia tem sabido manter a calma para não desmanchar toda a alegria dos que nos visitaram.

Vimos alguns, como senhores, desafiando-nos até. Não seria pela consciência das nossas fraquezas, ou mesmo hipotecas em surdina, como povo frágil, de brandos costumes e até demasiado complacentes?

A análise dos factos vai trazer muita luz. Pode ser uma nova aurora para os portugueses, se soubermos tirar a lição, e formos capazes de nos vermos mais realistas, esquecendo o fantástico ou o patético no fascínio das vitórias.

O futebol não é tudo, mas uma parte do nosso povo… Seremos capazes de fazer o mesmo esforço para outras causas, de modo a sairmos do látego ou labirinto dos níveis baixos em que nos situamos? Seremos capazes de fazer o mesmo esforço para a melhoria dos hospitais, condições de saúde, e para a elevação e qualidade dos trabalhadores, das nossas escolas e universidades?

A onda de nacionalismo que o futebol despertou – com uma vexilomania, a terçar a bandeira por todo o lado, mesmo do avesso -, existirá para outros objectivos nacionais e para a transformação de mentalidades, através da sua simbologia e significação? Assim o espero…




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