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Vexilomania ou chauvinismo?

Que dirão outras nacionalidades, que residem em Portugal, sobre esta súbita febre à volta da bandeira nacional?

N/D
21 Jun 2004

Nos últimos dias somos as saltados por uma onda – proposta pelo seleccionador nacional de futebol – de bandeiras a flutuar em tudo quanto é/era sítio: nas janelas, nas varandas, cobrindo prédios, nos carros particulares e transportes públicos… tudo por um sentimento de nacionalismo em volta da selecção nacional de futebol que está a disputar o campeonato europeu.
Como que nos foi perpassando a sensação de uma doença colectiva em favor de tal desígnio que quem não se deixasse contagiar quase se sentia fora desta vaga de nacionalismo… dirão alguns um tanto “bacoco” e oportunista, se não no conteúdo ao menos na forma.

Que dirão outras nacionalidades, que residem em Portugal, sobre esta súbita febre à volta da bandeira nacional? Desde logo que a nossa capacidade de mobilização manifesta um certo déficit de grandes causas. Que o futebol consegue – ao menos nas horas que antecedem os jogos – gerar motivações mais ou menos envolventes do “todo” nacional… na busca da vitória, mesmo sem ter em conta a qualidade (conhecida ou surpreendente) dos adversários.

Que imagem damos da nossa dinâmica colectiva? Que precisamos de ilusões, de utopias e de criadores de sonhos… nem que seja por entre desconfiança ou menosprezo dos propulsores da vertigem pseudo-desportiva.

Em latim “bandeira” diz-se “vexillum”, com o termo erudito “vexilo”, significando “insígnia, estandarte, bandeira”. Daí que possamos encontrar quase um neologismo: “vexilomania”, como essa nova tendência em exaltar a bandeira nacional, mesmo que à custa de outras vertentes menos claras… sobretudo sem a entenderem como um sinal da nação portuguesa!

De facto a quem interessará esta vexilomania? Talvez aos vendedores de bandeiras, mas, sobretudo, este clima deverá questionar os educadores do povo português:

– Que têm andado a fazer os políticos profissionais e os que vivem da carolice (politiqueira) ao serviço das populações? Até onde irá o desfasamento entre o desejo e a mobilização?;

– Que têm feito as Igrejas, sobretudo a Católica, pela criação da identidade nacional mais profunda dos portugueses? Até onde irá o desfasamento entre as (boas) intenções e a prática dos valores de pátria, patriotismo e serviço em favor dos outros?;

– Que tem feito a comunicação social, como quarto poder, pela construção desse tal “Portugal positivo”? Até onde irá o desfasamento entre as vendas, o “share” e o bem comum… servindo a verdade sem olhar aos patrões que lhes pagam e (quantas vezes) provocam a escolher o “quanto pior melhor”?

Que a nossa devoção à bandeira portuguesa – mesmo que pontual e alienante – não nos envergonhe no futuro nem crie obstáculos aos milhares de imigrantes que estão entre nós!




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