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Onde está o ópio do povo?

Parece que o que se ouviu demais no futebol, ouviu-se de menos nas eleições. O contraste entre estádios de futebol cheios e urnas eleitorais às moscas foi notório

N/D
21 Jun 2004

Dois acontecimentos tiveram grande impacto na vida social portuguesa, durante a segunda semana deste mês de Junho: um foi o futebol, o outro foram as eleições para o Parlamento Europeu. Quanto ao primeiro, a derrota perante a Grécia, no jogo inaugural do Euro2004, assumiu proporções de perda de independência.
Nas ruas, na espera dos semáforos, no convívio com os amigos, as caras eram de pesar e as palavras de condolências compungidas. Havia enterro em Portugal.

Voltáramos a ter outra Alcácer Quibir. Quanto às eleições passou-se precisamente ao contrário. Não ouvi um comentário de ninguém sobre a vitória eleitoral do PS. Parece que o que se ouviu demais no futebol, ouviu-se de menos nas eleições. O contraste entre estádios de futebol cheios e urnas eleitorais às moscas foi notório.

A democracia apanhou o cartão amarelo da propaganda. Verifica-se, mau grado, que as pessoas estão cansadas dos políticos e o caso não é para menos. Senão vejamos: as análises que ouvimos na noite eleitoral foram, uma vez mais, a expressão do maneirismo da forma, contra o valor do conteúdo. Tanta parra para tão pouca uva!

Naqueles jogos florais havia um deserto de ideias. Era a política velha em acção. A política velha não convence; os eleitores preferiram ir a banhos do que terem o “incómodo” de ir escolher. Escolher quem? Na verdade, votar é escolher e, neste caso das europeias, estávamos em dificuldades de escolha por desconhecimento das propostas para a Europa ou por não conhecermos os candidatos, ou vagamente conhecermos alguns. Para além da cor partidária, nada nos disseram dos projectos que tinham para apresentar. Como os poderíamos, então, escolher?

Fomos votar por dever democrático e votamos em branco, por ausência de convicção na opção. Se assim continuarmos, qualquer dia a abstenção ora verificada estender-se-á às presidenciais e depois às legislativas. Os políticos têm de repensar muito seriamente na eleição nominal. Queremos conhecer o rosto e o feitio, os projectos e a seriedade dos mesmos. A alma dos portugueses está abúlica?

Os portugueses embandeiraram o país com as cores nacionais; Portugal apareceu mais alegre, mais afoito e mais prazenteiro; fez isto pelo futebol; as pessoas juntaram o orgulho nacional com o patriotismo e deu um casamento ímpar. Isto significa que a alma lusitana está viva e que os estímulos, quando verdadeiros e justificados, actuam como alavanca. Foi assim igualmente com Timor.

Não queremos que a política ganhe ao futebol, queremos que a política seja capaz de galvanizar como galvaniza o futebol; a alma não tem apenas uma dimensão, e não alberga apenas um amor; apelamos para os políticos para não deixarem que o divórcio se estabeleça entre portugueses e a política com receio que a democracia de que tanto nos orgulhamos venha a sofrer com isso. As campanhas eleitorais foram outro marasmo de ideias.

Que tédio e que bocejo! Sejam mais criativos e, acima de tudo, mais alegres. A política não ganha nada em ser triste e crispada. O povo não gosta de sofrimentos.

Bem lhe basta o que sofrem todos os dias. Mesmo as verdades mais difíceis que têm de ser ditas devem ser divulgadas em tons suaves. Ganham mais penetração. O futebol tem a magia de renovar a esperança.

A cada derrota logo o ânimo se volta para o dia seguinte. Em política, a derrota eleitoral renova-se com a democracia da alternância. Os portugueses sofreram imensamente mais com a derrota de Portugal com a Grécia do que os da Direita experimentaram com a vitória do PS. Afinal, onde está o ópio do povo, Karl Marx?




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