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Scolari deve usar dez pontas-de-lança?

O que é mais fascinante nos bons treinadores de bancada é o facto de eles nunca terem dúvidas. O bom treinador de bancada sabe exactamente e sempre sem qualquer hesitação o que é necessário para melhorar a produtividade de uma equipa de futebol. Exacto no diagnóstico, implacável na terapêutica, assim é essa personagem que tantos gostam de encarnar. O bom treinador de bancada é uma espécie de cientista social pós-graduado em sociologia das organizações.

N/D
20 Jun 2004

Ele perora sobre o mais adequado modo de produção dentro das quatro linhas com o brilhantismo de um especialista em cultura organizacional. A cultura organizacional, como explica qualquer manual sobre a matéria, é um sistema de acções, valores e crenças comuns que se desenvolve numa organização e orienta o comportamento dos seus membros.
Qualquer bom treinador de bancada não ignora estes rudimentos. Um mau treinador julga que a competitividade melhora com esquemas tácticos bem desenhados, mas o bom treinador de bancada sabe que ela é mais do que isso.

Como Toni ensinava no “Correio da Manhã” de segunda-feira, “mais do que as questões tácticas, é determinante a capacidade de recuperar do ponto de vista mental”. Quando coloca o rendimento na dependência do ponto de vista mental, o bom treinador de bancada sabe que não corre o risco de se enganar: se a equipa não ganha, tal só pode suceder porque não conseguiu ter “mentalidade ganhadora”.

Numa ocasião em que tanta gente se mostra capaz de ter ideias tão claras sobre o que é que deve ser feito para que as coisas da bola funcionem, revelando inesperados conhecimentos sobre cultura organizacional, bem se podia agulhar essa imensa sabedoria para as áreas em que os treinadores de bancada trabalham no dia-a-dia. Se é simples saber o que deve ser feito para melhorar o modo de trabalhar de terceiros, ainda deveria ser mais simples fazer alguma coisa para melhorar a forma própria de trabalhar.

Há quem garanta que a cultura de um país ou de uma região tem uma influência maior sobre o modo como são geridas as organizações do que a própria cultura da organização. Entre nós, há boas excepções que podem, muito bem, confirmar essa regra, uma regra tão evidente em histórias mais ou menos conhecidas, como a que relata a chegada de um repórter às portas do Inferno.

Em cada uma das entradas, observa o repórter, há uma tabuleta que indica o que se passa em cada inferno. “Inferno Alemão – Horário dos fogos: 9h-12h; 14h-17h. Descanso semanal à quinta-feira. Extras: chicotadas. Não se fazem devoluções”, diz a tabuleta do Balcão 1. Junto dele, há uma fila com apenas duas pessoas, constata o repórter que se dirige, então, à outra porta, onde se podem ler as especificidades do Balcão 2: “Inferno Francês – Horário dos fogos: 7.30h-13.30h. Atendimento personalizado. O diabo-chefe deseja-lhe uma boa eternidade”. O repórter espreita e constata que apenas meia-dúzia de pessoas esperam para entrar naquele inferno.

O repórter chega ao Balcão 3, em que se anuncia o “Inferno Português – Horário dos fogos: 7.30h-19.30h. Sem descanso para almoço. Fogos individuais e de grupo. Patrulhas de hora a hora, chicotadas, repreensões, reuniões permanentes. Horrores nunca vistos. Última palavra em tecnologia da dor. Não se aceitam reclamações”. Uma multidão compacta tenta forçar a entrada aos berros. Toda a gente acena uma série de documentos oficiais. Os mais velhos querem passar à frente. Uns alegam dores em qualquer parte do corpo; outros, antiguidade. O repórter lê novamente o anúncio. Parece-lhe que o inferno português é o mais tenebroso. Sendo o mais ameaçador, deveria ser, portanto, o menos pretendido.

Para tentar compreender as razões por que tanta gente prefere o inferno mais terrível, aproxima-se de um popular que grita para quem está a mais à frente junto à porta: “Então essa porcaria não anda?”. O repórter diz-lhe que os outros infernos estão sem filas de espera e são bem mais humanos. O homem agradece a informação com um ar assaz indiferente.

São dez e meia e as portas do inferno português ainda não abriram. O homem olha para o repórter e começa a falar: “Bem vê: aqui, o horário é mais terrível, mas nunca é cumprido. Raramente há gás para os fogos. Os membros do conselho de administração, todos eles filhos do diabo, estão sempre ou em viagem ou em casas de alterne ou a jogar às cartas, pelo que estamos descansados. Havia chicotes, mas desapareceram; diz–se que foi o administrador-delegado que os vendeu aos alemães.

E os horrores que eles anunciam são uns leões vegetarianos que nada têm para comer e uma figura de cera do Paulo Portas que diz umas frases em verso quando se mete uma moeda de vinte cêntimos. No entanto, como nunca se arranjam trocos, permanece de olhos semi-cerrados e calado.

E aquilo da tecnologia da dor refere-se a um tipo que devia vir espetar uns alfinetes, mas ele meteu baixa há três anos e não arranjaram substituto”. O repórter ficou ainda a saber que para entrar no inferno português era preciso ir para uma fila para tirar vinte e um atestados, cento e cinquenta e sete certidões, duzentos e trinta e quatro certificados e quarenta e nove registos.

Em Braga, junto de um balcão mais terreno, também as pessoas se iam amontoando num dos dias da semana que findou. Enquanto um funcionário não público se esforçava por atender rapidamente e bem os clientes, dois colegas seus mantinham nas imediações uma audível discussão sobre o que a selecção nacional tinha de fazer hoje para ganhar. Divergiam quanto ao número de pontas-de-lança, mas percebia-se que sabiam como é que uma equipa de futebol deve funcionar.




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