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Fez-se justiça

O conhecimento da instituição de um prémio literário com o nome de Maria Ondina Braga foi a coisa mais bonita que ultimamente me aconteceu. Maria Ondina, lá do seu eterno descanso, sorrirá, encolherá os ombros naquele jeito que bem lhe conhecemos e dirá, provavelmente: – Fico contente, sim, fico contente, mas não sei porque o fazem. Eu escrevo, gosto de escrever e digo o que sinto, sem pensar em galardões. Há tanta gente por aí a escrever bem, melhor do que eu, porquê a mim? No entanto, agradeço, não mereço, mas agradeço. Muito obrigada, é só o que tenho a dizer.

N/D
19 Jun 2004

A gente sabe, Maria Ondina. Nós que a conhecemos e amamos sabemos do seu desprendimento, da sua simplicidade humilde, da sua verdade, honestidade, probidade.
Conhecemos os seus dotes extraordinários de efabulação, o empenho que pôs no aprofundamento da língua portuguesa, as suas qualidades de mulher, de pessoa humana.A delicadeza de trato, a afabilidade e simpatia, o carinho que a todos dispensava.

E a estes predicados, a querida amiga acrescentava um que dificilmente hoje se encontra, direi que não se encontra mesmo, naqueles que escrevem: a humildade sincera, a humildade de coração e, não aquela que muitos fingem só para provocar a bajulação. A humildade cristã. O tornar-se pequenina na sua fragilidade física, mas na sua grandeza de alma que a levou a dizer “certas verdades” aos poderosos e pedantes, aos orgulhosos e tolos, aos medíocres. Aquela humildade usada por Jesus Cristo enquanto, aninhado, rabiscava no chão, esperando a sentença dos “doutores” para a mulher adúltera.

– Mulher, ninguém te condenou? Pois também eu te não condeno. Vai.

Jesus, o único com autoridade para condenar, tornou-se servo dos arrogantes, dos falsos, dos tolos.
Senhor Presidente da Câmara de Braga, bem haja pelo seu gesto. Não conheço que grandes coisas tenha feito por esta pequena-grande mulher e grande escritora. Deixá-lo. Há sempre um momento de começar e depois nunca mais parar. Maria Ondina Braga, apesar de uma vida errante, é “santa da nossa terra” e fez verdadeiros milagres, apesar das dificuldades que teve de ultrapassar. Eles estão aí, os seus livros. Leiam-nos todos os bracarenses e ficarão a conhecê-la.

E honrêmo-la, homenagêmo-la, façamo-lhe justiça. Ela se alegrará, apesar de dizer muitas vezes que era uma pessoa simples, que não era ninguém. É este o primeiro prémio literário criado pela Instituição a seu cargo, Senhor Presidente. Pois creia que ninguém o mereceu tanto. Bem haja, de novo. Ganhar um dia este prémio qualquer.

Maria Ondina Braga nunca foi uma qualquer, nem como pessoa nem como escritora. Como ficcionista é do melhor que se tem lido. A sua prosa é clara e transparente como cristal. As suas personagens são gente que vive, vibra e respira, que fala verdade que, tal como a sua criadora, diz o que sente.

Foi em Março o primeiro aniversário do seu passamento discreto. Não tendo estado cá, não soube como cidade recordou este dia e homenageou a sua escritora. O que quer que se tenha feito, presumo que insuficiente para pessoa de tanto valor. Os homens são assim. É assim esta raça humana que hoje povoa o Universo. Mal-agradecida, descuidada, desumanizada, valorizando muitas vezes o longínquo que brilha e reluz. Desconhecem, portanto, que esta bracarense chamada Maria Ondina Braga, esta figurinha elegante e frágil foi dotada de grande coragem, determinação e sabedoria.

Como os grandes de outrora, ela divulgou a Pátria Língua e, como cidadã do mundo, deu-nos a conhecer, em bom português, outros povos, outros espaços, outros costumes. Ela, como ninguém, soube aprender, ensinar, divulgar. Levar e trazer culturas, crenças, ideias, gostos. Não se preocupou muito, se calhar, com uma Europa unida, mas porque “A Clima mora ao Lado”, teve sempre em mente uma Unidade Universal.




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