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Futebol: desporto, espectáculo ou indústria ?

“Perder bem” prepara para a vida onde há sempre revezes e dificuldades a enfrentar. É a atitude de quem aprende com a derrota, reconhece os erros e recomeça de novo com esperança, mas sem peneiras, porque na vida, como no jogo, o importante é participar

N/D
18 Jun 2004

Certamente foi desporto. E ainda o pode ser na sua essência de jogo humano elaborado como competição saudável capaz de desenvolver as virtudes de lealdade, destreza, espírito de equipa… Mas aquilo a que assistimos (e participamos) já é uma “arte” pobre desses valores de gratuidade e equilíbrio que transformou o desporto de “déport”, actividade “sem porte” em acções “com porte” bem pago. E o ócio, de espaço privilegiado de humanização de “mente sã em corpo são”, tornou-se negócio, por vezes obscuro nos seus meios e nos seus fins.
O futebol é, de facto, uma actividade intrigante e fascinante pela sua crescente capacidade de mobilização e envolvimento emocional de homens e, cada vez mais, mulheres de todas as classes e idades. E o reverso – óbvio – da medalha? Clubismo agressivo, jornalismo de arruaça panfletária, escândalos financeiros, transacções suspeitas, ordenados sem proporção…

Está na hora de ler (ou reler) a Nota pastoral “O desporto ao serviço da construção da pessoa e do encontro dos povos” que a Conferência Episcopal propôs à nossa reflexão, já em Novembro de 2003. É que em 2004, além do Euro de futebol, teremos as Olimpíadas e, ainda mais importante, o Parlamento Europeu determinou que seja “Ano da educação pelo desporto”.

Trata-se, pois, de uma ocasião única de proporcionar espaços e experiências desportivas acompanhadas de sentido crítico para que a juventude, sobretudo, descubra o que é o verdadeiro desportivismo que pode contribuir não só para o desenvolvimento físico mas para criar relações de respeito e de paz.

Indo mais longe na aceitação dos limites, promove a arte lúdica juntamente com a coragem na luta na obediência às regras da vida social, não desligando a festa da corresponsabilidade, o sentido estético do espírito de equipa na alegria de participar, como diz o velho ideal olímpico: “mais rápido, mais alto, mais forte”. Escola de virtudes e de valores humanos pessoais e colectivos que tanta falta fazem num mundo desencantado e individualista, aprendidos com leveza, bom humor e companheirismo.

Será este o resultado do Euro2004? Também se desejaria promover a educação do “desportistra” de bancada que precisa de aprender a ver e a sofrer e a alegrar-se sem violência, nem ofensa, nem fanatismo.

Aliás, um bom lema para esse projecto educativo seria: saber perder! Quem não sabe perder, não sabe ganhar. Perder com honra, tendo sabido lutar com honestidade é uma vitória tão grande como ganhar com respeito pelo adversário, sem humilhar… Tudo mais é “perder mal” mesmo quando se ganha o jogo, por se ter perdido em humanismo. “Perder bem” prepara para a vida onde há sempre revezes e dificuldades a enfrentar.

É a atitude de quem aprende com a derrota, reconhece os erros e recomeça de novo com esperança, mas sem peneiras, porque na vida, como no jogo, o importante é participar. Tristemente, hoje, encaminham-se os jovens numa atitude individualista em busca do “estrelato” que dará dinheiro fácil e injecta-se uma mentalidade consumista de “ricos” que pensa que só vale a pena ir a jogo com a equipa mais forte para ganhar. Mais que o jogo buscam-se dividendos e promoção pessoal.

Nessa cultura o desporto perde também o seu efeito de relativizar as “guerras” deste mundo transferindo-as para competições saudáveis, regredindo às atitudes violentas e mentirosas justificadas pelo dinheiro e os interesses mais mesquinhos de alguns “patrões da bola” que a coberto do futebol movem uma indústria multinacional e complexa que vai da construção civil à moda e ao jornalismo.

Por este caminho, já está perdido o Euro, o Ano e o Futuro. Que assim não seja.




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