Fotografia:
Sinais preocupantes

Com o défice de informação e debate que se vem verificando, não admira que a almae cidadania europeias pareçam cada vez mais uma miragem

N/D
17 Jun 2004

Apesar da enorme abstenção verificada nas eleições europeias, não se confirmaram as piores expectativas que algumas sondagens antecipavam e faziam temer. Em todo o caso, temos de convir que são preocupantes os sinais dados pelo eleitorado, tanto em Portugal como nos restantes Estados-membro da União Europeia (UE).

O primeiro e mais evidente desses sinais é o do alheamento, desinteresse, desmobilização e apatia dos cidadãos em relação à Europa. Os eleitores, neles incluídos os dos dez novos países do alargamento, estão-se borrifando para as questões europeias, entre as quais a da aprovação do novo Tratado Constitucional Europeu cuja magnitude das consequências políticas e institucionais nunca é demais realçar.

Numa altura em que a Europa precisa cada vez mais de ser encarada como um ideal de paz, democracia e solidariedade, num espaço unido pelo progresso económico e social, é descoroçoante verificar o desinteresse demonstrado pelos cidadãos relativamente às reformas institucionais que urge promover no seio da UE.

Mas também importa sublinhar aqui a grande quota de responsabilidade que aos governos, partidos políticos e órgãos de comunicação social dos
Estados-membros cabe relativamente ao imobilismo que caracteriza o actual estado da situação europeia.

Quando se impunha fazer uma redobrada pedagogia cívica relativamente às questões europeias, mormente quanto às trazidas pelo alargamento verificado em Maio findo, eis que as mais responsáveis entidades públicas dos países-membros parecem apostadas em reservar para as elites políticas a discussão sobre temas fundamentais da UE, deste modo, deixando transparecer a ideia de que assuntos tão complexos quanto desinteressantes devem ser reservados a governantes e a especialistas, dispensando ao povo a maçada da sua apreciação!…

E mais ainda: no caso português, a confusão dos eleitores foi ainda potenciada pela coligação de dois partidos do centro-direita cujos programas e práticas em matéria europeia não são nem nunca foram perfeitamente compatíveis.

E a referida preocupação é ainda acentuada pela subida significativa dos partidos independentistas e dos movimentos euro cépticos, designadamente no Reino Unido.

Por tudo isto é que não partilho do optimismo daqueles que, como Vital Moreira, entendem como sinal de vitalidade do projecto europeu a simples circunstância da realização de eleições nos 25 países da União. Com o défice de informação e debate que se vem verificando, não admira que a alma e cidadania europeias pareçam cada vez mais uma miragem.

Um outro sinal igualmente preocupante reside no facto de o eleitorado ter querido punir os governos pelas políticas que vêm desenvolvendo, manifestando, assim, indirectamente, o seu desagrado. E em Portugal, a avaliar pela hecatombe eleitoral dos partidos do Governo, o descontentamento popular é deveras significativo.

Incapaz de levar por diante as reformas que anunciou e de pôr em prática as políticas constantes do programa com que se apresentou ao eleitorado, o Executivo teve agora nas urnas um sério aviso. Há ministros que não servem e têm que ser substituídos.

Há sacrifícios que têm sido suportados exclusivamente pela classe média sem que daí resulte qualquer benefício substancial e duradouro para as finanças do país, só “equilibradas” à custa de receitas extraordinárias ou de duvidosas operações contabilísticas. Urge, por isso, fazer mudanças. Há reformas essenciais, como a da Justiça, que estão por fazer.

Por conseguinte, o que uma grande maioria dos portugueses quis dizer ao Senhor Primeiro Ministro foi que espera que, com gente mais competente e qualificada, governe melhor o país, de acordo com o programa proposto, sem cair na tentação fácil e demagógica de satisfazer tudo e todos, na ânsia de se perpetuar no poder.

Um último sinal de preocupação residiu no mau perder evidenciado por alguns políticos da coligação governamental que procuraram esconder a dimensão da derrota sofrida, salientando a “vitória” da abstenção, bem sabendo que esta nada decide. Quem na derrota não tem dignidade nem grandeza, não merece a glória de vencer. E muito menos de governar.

Perante sintomas tão preocupantes, importa encarar, como prioritária, a tarefa da formação cívica, fomentando a informação, o debate, a mobilização e a participação activa dos cidadãos nas grandes causas da vida nacional, europeia e mundial.

Cidadania europeia, verdadeiramente, não poderá nunca senti-la nem tê-la nenhum português que, antes de mais, seja um cidadão nacional de corpo inteiro. Bem educado e bem formado.




Notícias relacionadas


Scroll Up